Era 1948, silêncio de guerra fria,
Shannon risca no papel:
“tudo pode ser zero ou um,
a mensagem é ruído domado.”
Do Morse ao transistor,
do fio ao espaço sideral,
o mundo vira código,
e a palavra já não é carne, é sinal.
(Refrão – O batimento que resta)
Mas ainda é possível saber
sem bit, sem rede, sem cifra.
No corpo que lembra, na boca que canta,
o humano insiste em existir.
(Verso 2 – O século do silício)
O silício cresce em desertos,
máquinas falam em línguas secretas.
Da ARPANET à nuvem infinita,
cada sonho é log, cada dor é dado.
Os impérios não precisam de canhões,
apenas pacotes, cabos, satélites.
O algoritmo reza mais alto
do que qualquer profeta de praça.
(Verso 3 – Geopolítica em colapso)
Nações se medem em terabytes,
soberania é banda larga.
Do petróleo às redes sociais,
o poder é quem guarda a chave privada.
Mapas mudam em tempo real,
revoluções cabem em hashtags.
E enquanto a fome ainda rói ossos,
os céus são povoados de drones.
(Refrão – Grito contra a máquina)
Mas ainda é possível saber
sem bit, sem rede, sem cifra.
Na pele marcada, no gesto herdado,
a memória respira fora do código.
(Verso 4 – O Apocalipse)
Quando a luz da tela apagar,
quando o servidor não responder,
quando os últimos cabos forem cinza,
e o ruído vencer a mensagem,
não restará firewall ou senha.
A queda não terá bug fix,
só cinzas de cidades queimadas
e ecos de vozes sem backup.
(Final – O silêncio que é saber)
E nesse fim,
quando até os anjos se calarem,
haverá alguém que ainda conta histórias
sem binário, sem bit, sem Shannon.
Porque o saber não cabe em máquina —
ele sangra, canta e insiste.