No meio do deserto,
entre a sede e o medo,
um povo carregava no peito
mil feridas e segredos.
Olharam para o céu,
procuraram salvação,
mas a serpente estava erguida
diante de cada coração.
Disseram: “É o mal!
É aquilo que devemos combater!”
Mas ninguém perguntou
o que ela veio nos dizer.
Olha a serpente!
Olha para nós!
Talvez aquilo que rejeitamos
seja a nossa própria voz.
Olha a serpente!
Sem medo de enxergar.
O que todos chamam de sombra
também pode nos despertar.
Quantas vezes expulsamos
quem não conseguimos compreender?
Quantas vezes queimamos pontes
porque tivemos medo de ver?
Chamamos alguém de monstro,
de estranho, de perdido,
sem perceber que o espelho
estava diante de nós, ferido.
Cada povo cria seus demônios,
cada tempo escolhe um inimigo.
E enquanto apontamos o dedo,
alimentamos o mesmo perigo.
Porque a sombra que condenamos
pode morar dentro de nós.
E o grito que silenciamos
pode ser a nossa própria voz.
Olha a serpente!
Olha para nós!
Ela rasteja pela história,
ela vive entre nós.
Olha a serpente!
Não tente destruir.
Talvez ela seja a memória
daquilo que esquecemos de sentir.
Uns querem poder.
Outros querem controle.
Uns querem possuir.
Outros querem um nome.
Uns escondem seus desejos,
outros escondem sua dor.
Uns transformam medo em ódio,
outros confundem ódio com amor.
E assim seguimos pelo deserto,
ferindo para não ser feridos,
criando muros, criando guerras,
chamando inimigos de inimigos.
Até que alguém se atreva
a interromper o ciclo.
A parar.
A olhar.
A reconhecer.
A serpente somos nós.
O espelho somos nós.
A ferida somos nós.
E também a cura somos nós.
Não existe sombra sem luz.
Não existe cura sem verdade.
Não existe liberdade
sem atravessar a própria humanidade.
Talvez ninguém precise morrer
para que o veneno termine.
Talvez precisemos apenas
deixar cair aquilo que nos prende.
A antiga pele.
O velho medo.
A velha história.
E quando todos olharem,
não haverá mais um culpado.
Haverá um povo inteiro
diante do próprio retrato.
Então a serpente se ergue,
não para nos devorar,
mas para lembrar que aquilo
que tememos também pode transformar.
Olha a serpente!
Olha para nós!
Somos sombra, somos luz,
somos silêncio e somos voz.
Olha a serpente!
Agora sem condenar.
Talvez a cura do mundo
comece quando aprendermos
a nos olhar.
A serpente somos nós.
Todos nós.
E talvez o paraíso perdido
nunca tenha sido um lugar.
Talvez fosse apenas
a coragem de sermos inteiros
outra vez.