MAGNUM OPUS
(Ópera Alquímica sobre Nigredo, Albedo e Rubedo)
(Prelúdio)
O Athanor
No silêncio do laboratório da alma,
o fogo foi aceso.
Os antigos alquimistas sabiam:
não se transforma chumbo em ouro…
sem antes transformar a si mesmo.
E toda Grande Obra começa
quando o homem aceita morrer
para aquilo que acreditava ser.
NIGREDO
(A Putrefação · A Noite da Alma)
(Verso I)
As paredes internas começaram a ruir.
Os símbolos queimaram em negro profundo.
Tudo aquilo que eu chamava “eu”
desabou no ventre do submundo.
A máscara caiu diante do espelho.
O ego tremeu diante da dissolução.
E o abismo abriu suas portas
dentro do meu coração.
Kali dançava sobre minhas certezas.
Corvos circulavam o céu ritual.
A matéria apodrecia lentamente
no útero escuro primordial.
(Refrão I)
Nigredo…
a noite devora o nome.
Nigredo…
o velho rei se consome.
No chumbo da dor escondida
o espírito começa a despertar.
Pois quem não atravessa as sombras
jamais aprende a transmutar.
ALBEDO
(A Purificação · O Branco Lunar)
(Verso II)
Então veio o silêncio depois da ruína.
Como neve caindo sobre carvão.
As águas lavaram minhas feridas
e a lua tocou minha iniciação.
Eu vi o mundo sem os véus antigos.
Vi o medo dissolver-se devagar.
E aquilo que antes era caos
começou a se reorganizar.
A serpente dormia tranquila.
O Sol Interno começou a surgir.
E pela primeira vez em eras
eu não precisei fugir.
(Refrão II)
Albedo…
a alma aprende a respirar.
Albedo…
as águas começam a curar.
Do branco nasce o entendimento.
Da calma nasce a visão.
Pois depois da morte simbólica
vem a purificação.
RUBEDO
(A União · O Ouro Filosofal)
(Verso III)
Então o ouro despertou no centro do peito.
Não ouro material…
mas consciência viva.
O Sol e a Lua uniram seus rostos.
A sombra e a luz tornaram-se alquimia.
Shiva dançou dentro do fogo rubro.
O sangue tornou-se vinho ritual.
E o espírito atravessou a matéria
como uma estrela celestial.
Já não havia divisão.
Nem guerra entre céu e abismo.
O dragão agora guardava o templo
ao invés de devorá-lo por instinto.
(Grande Refrão)
Rubedo…
o fogo coroou o iniciado.
Rubedo…
o ouro foi despertado.
Nigredo foi a descida.
Albedo foi purificação.
Mas Rubedo é o nascimento
do Sol dentro da escuridão.
(Epílogo — Circular)
E no fim da Grande Obra…
o alquimista compreende:
o ouro sempre esteve oculto
dentro do chumbo da própria alma.
Então o fogo recomeça…
No silêncio do laboratório da alma…
o fogo foi aceso.