O Dia em que o Céu Falou (versão aumentada)
Pai, ainda me lembro
Já lá vão muitos anos
Um homem pequeno no corpo
Mas gigante no cansaço dos dias
Carregava caixas pesadas
Desde cedo até a noite cair
O suor misturava-se com a dor
E ninguém queria ouvir
O banho mandou a caixa para o lugar
Sem olhar nos meus olhos
Como quem manda num objeto
E não num irmão cansado
Ele saiu do empilhador aos gritos
Ranhando, cuspindo palavras no ar
Como chicotes invisíveis
A tentar me dobrar
Eu já estava cansado, Pai
Não só no corpo, mas na alma
Cada grito era um peso a mais
Cada ordem, uma ferida que não fala
Mas Pai… o céu estava lá
Nesse dia ninguém viu
Mas o céu estava lá
E o céu nunca dormiu
O céu falou em silêncio
Disse-me só: “Tem calma”
E essa calma foi escudo
Quando a raiva queimava minha alma
À frente de muita gente
A verdade ficou de pé
O banho ficou envergonhado
Porque o céu não se engana na fé
O castigo dele não veio na hora
Não caiu como pedra no chão
O castigo do céu é mais fundo
É morar com o peso no coração
Quem humilha vive preso
Mesmo achando que manda
Quem grita contra o fraco
O céu cobra, não falha
O céu tirou-lhe o descanso
Tirou-lhe a paz do olhar
Porque quem fere um irmão
Nunca mais sabe repousar
Pai, eu fiquei de pé
Não levantei a mão
Porque o céu me ensinou
Que justiça não nasce da agressão
Hoje eu lembro esse dia
Não com ódio, mas com verdade
O céu falou comigo
E isso foi minha liberdade
Há dias que não passam
Ficam escritos na vida
Mas quando o céu fala baixo
Até a dor fica vencida
Pai, o castigo não foi meu
Foi dele, diante do céu
Eu segui com a consciência limpa
E isso… ninguém me tirou, Pai meu