1Silêncio profundo gravado no nosso ADN, a herança de quem cala e consente,Mas o sangue corre forte nas veias e a revolta de repente faz-se presente.Olho para o lado e vejo uma inversão total de valores nesta nossa era,Os filhos precisam dos pais por perto, mas o sistema montou outra barreira.Pais que trabalham doze horas por dia, a correr contra o relógio e o cansaço,Chegam a casa exaustos, sem forças para dar um conselho ou um abraço.Ausência forçada pela sobrevivência, pela pressa de pagar as contas do mês,E as crianças crescem sozinhas, entregues aos ecrãs, num mundo de altivez.Hoje em dia os mais novos têm tudo à distância de um clique, sem esforço ou suor,Mas paradoxalmente não dão valor a nada, o vazio emocional parece cada vez maior.Têm marcas, têm luxos, têm excessos que cobrem a falta de rumo e de atenção,Enquanto a gratidão se perdeu no meio do consumo e da futilidade desta geração.RefrãoPessoas na pobreza extrema, esquecidas na berma de uma estrada sem saída,Crianças a passar fome à vossa porta, a perder a dignidade e a própria vida.O governo sabe perfeitamente de tudo, vê os números, lê as estatísticas reais,Mas fecham-se nos gabinetes, lavam as mãos e dizem que já não podem fazer mais.A hipocrisia veste fato e gravata, discursa com palavras mansas e promessas ocas,Mas a vossa indiferença perante a miséria humana é o combustível que nos enche as bocas.Verso 2É uma realidade de contrastes que rasga a alma e revolta qualquer cidadão atento,Num bairro há desperdício e tédio, no outro há um estômago vazio a chorar de lamento.Como é possível aceitar a escassez num país que se diz moderno e evoluído?Onde o grito de socorro de uma mãe sem leite para o filho é sistematicamente abafado e esquecido?Eles assistem do topo dos seus privilégios, blindados contra a crise e a inflação,Discutem orçamentos milionários enquanto o povo partilha as migalhas do pão.A cumplicidade do Estado com a miséria é o crime mais grave que se pode cometer,Deixam os idosos sem reformas e as crianças sem um futuro digno para poderem crescer.Guardam o dinheiro nos bancos, salvam empresas públicas falidas com o nosso imposto,E para quem realmente precisa de apoio, mostram apenas um bando de burocratas de mau gosto.PonteA passividade terminou, a corda esticou tanto que acabou por quebrar,Não há paciência que resista a ver tanta injustiça social a acumular.A vossa arrogância política cega-vos perante a tempestade que se está a formar,Quem não tem nada a perder já não tem medo de ver o vosso palácio a queimar.Verso 3A indignação ferve no peito, a paciência do povo esgotou-se na totalidade,Ver os decisores políticos a enriquecer à custa do sacrifício de toda a sociedade.A impunidade é tanta, o descaramento é tão alto nas cadeiras do poder central,Que uma bomba na Assembleia da República era pouco para o castigo que seria ideal.Era pouco para o tamanho da traição, para o abandono a que votaram esta nação,Para o sofrimento de quem conta os cêntimos para comprar medicamentos..