Era criança, cúria e descalça,
das Caxinas até à Póvoa eu ia,
corria pela praia ao vento,
sem relógio, sem medo, só dia.
Areia colada na pele salgada,
olhos presos no céu cinzento,
o mar chamava pelo nome
e eu respondia com o peito atento.
ETA vila em vila passava,
cada rua uma lição,
caras duras, mãos gastas,
aprendia cedo a direção.
Pelos trilhos do velho comboio,
sonhos viajavam sem bilhete,
no balanço do ferro e do tempo
a esperança nunca se perde.
No comboio rumo à água fria,
o coração batia sem parar,
antes do corpo entrar no mar
já a alma sabia nadar.
Lutando contra a corrente forte,
onda após onda, sem fugir,
o mar não perdoa fraqueza
mas ensina a resistir.
Braço cansado, pulmão em fogo,
sal queimando o olhar,
cada queda virava força
pra voltar a levantar.
Se a maré puxava pra trás,
eu avançava mais um pouco,
nas Caxinas aprende-se cedo
que desistir é coisa de louco.
Era criança, mas a vida
não esperou eu crescer,
fez-me homem à força do vento,
entre o medo e o querer.
Vi barcos partirem no escuro,
vi mães rezarem em silêncio,
vi homens duros chorarem
quando o mar cobrava preço.
Aprendi que não há promessa,
nem milagre sem dor,
só o respeito pelo mar
e a coragem que sobra no amor.
Hoje levo no peito essa história,
gravada em sal e cicatriz,
quem nasce a lutar nas Caxinas
não pede nada — resiste e diz:
“Enquanto houver mar e caminho,
enquanto houver força em mim,
lutarei contra a corrente
até o fim.”