Ummm… ummm… ummm…
Ainda a noite mora no céu,
quando o galo nem pensou em cantar,
as mulheres caxineiras se alevantam cedo,
antes do sol no mar se deitar.
Lenço na cabeça, cesto no braço,
filhos pequenos atrás a correr,
pela estrada fria de areia e pedra,
aprendem cedo o que é viver.
O cheiro do sal cola na pele,
o vento corta mas não faz cair,
cada passo leva esperança,
cada dia é lutar e seguir.
O peixe vem do mar bravo,
trazido pela mão do homem pescador,
o caxineiro enfrentou a noite inteira,
rede pesada, peito cheio de dor.
Lá longe o motor da traineira,
gritou mais alto que o medo e o mar,
entre ondas altas e céu escuro,
foi a coragem que mandou ficar.
E nas ruas nasce o canto antigo,
voz de fado, voz de maré:
“Peixe fresquinho, pessoal!
Da traineira, vivinho como é!”
Gritam alto, gritam com alma,
cada porta é uma oração,
não é só peixe que ali se vende,
é suor, é vida, é coração.
As crianças escutam e aprendem,
olhos grandes, pés no chão,
sabem que ali se faz futuro,
entre pobreza, luta e união.
O sol já sobe, a venda termina,
o corpo dói mas a fé não cai,
com orgulho voltam pra casa,
sabendo que ninguém as trai.
Lá está o homem a descansar,
corpo cansado, mãos a tremer,
ela chega mansa, trata dele,
sabe que ele vai voltar a sofrer.
Dá-lhe comida, carinho e silêncio,
deixa-o dormir mais um pouco só,
porque à noite o mar chama de novo,
e ninguém vence o destino só.
Quando o dia já vai cansado,
ela ainda fica a arrumar,
roupa molhada, rede rasgada,
vida que nunca para de andar.
Ummm… ummm… ummm…
Assim vive a gente caxineira,
sem luxo, sem medo, sem ilusão,
com mar nos olhos e sal no sangue,
trabalho duro, amor e tradição.