(ENCANTARIA)
(Jurema • Encantaria Brasileira • Trance Ritual • Afro-Indígena)
(Maracá distante. Tambor grave. Som de mata ao anoitecer.)
Na curva da mata eu ouvi chamar,
um nome antigo vindo de algum lugar.
Não era homem, não era santo,
era um segredo vestido de encanto.
A fumaça sobe, a noite responde,
quem conhece a mata sabe onde se esconde.
Entre a raiz, a folha e o luar,
há uma cidade que não se pode mapear.
ENCANTA! ENCANTA!
Abre a porteira do invisível!
ENCANTA! ENCANTA!
Mostra o caminho que não é visível!
Eu entro na mata, deixo meu nome,
deixo o que fui, deixo o que consome.
Se a Jurema chama, eu vou escutar,
se o Mestre ensina, eu vou caminhar.
Não venho pedir riqueza ou poder,
venho aprender a morrer para renascer.
Porque na ciência que a mata guarda,
quem busca verdade também se transforma.
Ô Jurema!
Chama quem sabe.
Ô Jurema!
Firma quem vem.
Mestre na frente, Mestra ao lado,
maracá tocando no chão encantado.
Caboclo na mata, vento no rosto,
a noite revela aquilo que estava oculto.
Eu vi uma cidade depois da neblina,
vi uma luz atravessar a campina.
Não sei se sonhei, não sei se encontrei,
mas quando voltei, já não era quem era.
ENCANTARIA!
Terra que ninguém domina.
ENCANTARIA!
Força antiga que ilumina.
Encantado não vem para alimentar vaidade.
Vem trazer ciência, silêncio e verdade.
Quem entra na mata precisa aprender:
nem todo mistério nasceu para se explicar ou entender.
(Tambor acelera.)
Eu não caço o encanto.
Eu me torno silêncio.
Eu não domino a mata.
Eu escuto o seu tempo.
Eu não abro o segredo
à força da mão.
A mata escolhe
quem recebe a visão.
ENCANTA!
Encanta meu caminho!
ENCANTA!
Não me deixa andar sozinho!
Ô Jurema! Ô Jurema!
Ciência da mata, força que chama!
Ô Jurema! Ô Jurema!
Quem bebe do mistério nunca volta o mesmo!
(Break — apenas maracá e respiração.)
No coração da mata
há uma porta sem portal.
No silêncio da noite
há um chamado ancestral.
Se eu atravesso o véu,
não atravesso para fugir.
Atravesso para lembrar
quem eu vim ser aqui.
ENCANTARIA!
ENCANTARIA!
A mata canta, a alma escuta!
ENCANTARIA!
ENCANTARIA!
Abre o caminho — a noite conduz!
(Clímax)
Mestre, firma meu passo!
Mestra, guarda meu coração!
Caboclo, mostra a trilha!
Jurema, dá direção!
Que eu caminhe com respeito.
Que eu escute antes de falar.
Que eu reconheça o mistério
quando ele vier me chamar.
ENCANTA! ENCANTA! ENCANTA!
Na mata eu entrei sozinho...
Na mata eu encontrei muitos caminhos...
E quando o dia nasceu,
eu descobri que o maior encantamento
era ter aprendido a escutar.
(Maracá desaparece lentamente.)
ENCANTARIA...
ENCANTARIA...
ENCANTARIA...