(Intro — tambor grave, vento, respiração)
Eu era forte.
Eu era abrigo.
Escutava o mundo
quando ninguém queria ouvir.
Aconselhava os perdidos,
ajudava quem caía,
orava pelos que sofriam,
acendia luz na noite alheia.
Diziam:
“Eu sei quem você é.”
“Eu me importo.”
“Estou aqui.”
Mas quando chegou minha vez…
ninguém ligou.
[VERSO I]
Eu fui forte até esquecer
que também podia quebrar.
Sorri enquanto sangrava,
acolhi enquanto desabava.
Fui colo para tantas dores,
mas quem acolheu a minha?
Talvez amassem o que eu fazia,
mas quem amou quem eu era?
Então o chão desapareceu.
E eu caí.
Caí para dentro da noite.
Caí para dentro de mim.
Sem mãos.
Sem respostas.
Sem ninguém.
[PRÉ-REFRÃO]
Quanto mais eu descia,
mais as máscaras caíam.
Meu nome.
Meu medo.
Minha história.
Meu personagem.
Tudo desapareceu.
E no fundo do abismo…
eu me encontrei.
[REFRÃO]
NO ABISMO EU ME ENCONTREI!
Onde ninguém veio, eu despertei.
NA ESCURIDÃO EU ENXERGUEI!
O que a luz nunca revelou.
Quando os homens se calaram,
a Terra me chamou.
Quando todos foram embora,
meu sangue ancestral chegou.
EU CAÍ…
MAS NÃO ESTAVA SOZINHO.
[VERSO II]
Ouvi ancestrais nas raízes,
vi espíritos dançando no fogo.
Entidades guardaram meus passos,
forças antigas abriram meus olhos.
Os Orixás vieram como forças:
OGUM — CAMINHO.
OXÓSSI — DIREÇÃO.
OXUM — CORAÇÃO.
IANSÃ — MOVIMENTO.
OMOLU — TRANSFORMAÇÃO.
A mata respirou comigo.
A água levou meus medos.
O vento levou meus mortos.
A pedra ensinou permanência.
A terra ensinou retorno.
E a chama…
a chama me lembrou quem eu sou.
[PONTE — A CHAMA E A SOMBRA]
Então compreendi:
A chama não existe sem a sombra.
A sombra não existe sem a chama.
A escuridão não era inimiga.
Era o útero.
O fogo não veio me destruir.
Veio me transformar.
Eu era a floresta.
Eu era o rio.
Eu era a tempestade.
Eu era a noite.
Eu era a estrela.
Eu era a chama viva.
Eu era a escuridão.
Eu era a queda.
Eu era o retorno.
EU ERA O TODO.
[DROP — REFRÃO]
NO ABISMO EU ME ENCONTREI!
Não precisei que o mundo viesse.
Não precisei ser salvo
para descobrir meu próprio valor.
Atravessei a noite
e encontrei minha chama.
NO ABISMO EU ME ENCONTREI!
Meus ancestrais estavam comigo.
Os antigos estavam comigo.
A Terra estava comigo.
O fogo estava comigo.
A sombra estava comigo.
E EU ESTAVA COMIGO.
[CLÍMAX]
Agora eu não carrego todos.
Agora escolho o que carregar.
Não sou mártir.
Não sou salvador.
Não preciso sangrar
para provar que amo.
Minha oração também é para mim.
Minha mão também alcança
o meu próprio coração.
Aprendi no fundo:
Quem realmente está
não precisa dizer que está.
[EPÍLOGO]
Eu caí.
Eu quebrei.
Eu atravessei.
Morri para aquilo
que eu pensava ser.
E das cinzas veio a chama.
Da chama, consciência.
Da escuridão, visão.
Da ancestralidade, memória.
Da natureza, vida.
E do Todo…
EU.
(sussurro)
Eu não fui abandonado pelo Universo.
Eu estava sendo devolvido a mim mesmo.
NO ABISMO…
EU ME ENCONTREI