(Intro — respiração, tambor grave)
Desci até o fundo
onde ninguém queria olhar.
No silêncio do abismo,
dois olhos me esperavam.
Uma serpente antiga
ergueu a cabeça
e disse:
“Por que fugiste de mim?”
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VERSO I
Passei minha vida sendo forte,
ouvindo quem precisava falar,
curando feridas,
orando por quem não sabia orar.
Queriam minhas mãos.
Queriam minha cura.
Queriam minha força.
Mas quando enxergavam
o que existia por trás da luz…
rejeitavam.
Amavam o curador.
Temiam a criatura.
E eu fiz o mesmo.
Rejeitei meus dentes.
Rejeitei meu veneno.
Rejeitei minha sombra.
Até esquecer
que aquela serpente…
era eu.
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REFRÃO
A ANTIGA SERPENTE ERA EU!
Eu era o fogo escondido,
a sombra sob a pele,
o mistério que ninguém queria ver.
A ANTIGA SERPENTE ERA EU!
Não veio do inferno.
Não caiu dos céus.
Nasceu dentro de mim.
A boca que me assustava
era a minha.
Os olhos que me encaravam
eram os meus.
Eu sempre fui a serpente.
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VERSO II
Talvez quisessem minha luz,
mas não suportassem minha noite.
Quisessem minha medicina,
mas temessem meu poder.
Quisessem minha presença
quando estavam quebrados,
mas me rejeitassem
quando eu já não podia servi-los.
E então compreendi:
Talvez não amassem quem eu era.
Amavam aquilo
que podiam receber de mim.
A verdade doeu.
Mas a dor abriu uma porta.
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PONTE — A SERPENTE
Ela subiu pela minha coluna.
Não para me prender.
Para me despertar.
Cada escama, uma memória.
Cada troca de pele,
um antigo eu abandonado.
E ela sussurrou:
“Pare de pedir permissão
para existir inteiro.”
Então eu parei.
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DROP
EU SOU A SERPENTE!
Sombra e chama.
Veneno e medicina.
Morte e renascimento.
Instinto e consciência.
EU SOU A SERPENTE!
Não o monstro que inventaram.
Não o santo que desejavam.
Não a máscara que me deram.
EU SOU AQUILO
QUE SEMPRE FUI.
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CLÍMAX
Meus ancestrais estavam comigo.
A floresta respirava.
O fogo ardia.
A água corria.
O vento carregava
nomes esquecidos.
E o Todo permanecia.
Sem julgamento.
Sem condenação.
A serpente tocou meu peito.
E entrou em mim.
Não como invasão.
Como retorno.
Como memória.
Como casa.
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REFRÃO FINAL
A ANTIGA SERPENTE ERA EU!
Eu não precisava matar minha sombra.
Precisava conhecê-la.
Não precisava destruir meu veneno.
Precisava aprender seu poder.
Não precisava abandonar quem eu era
para finalmente ser amado.
EU PRECISAVA
ME AMAR INTEIRO.
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EPÍLOGO — SUSSURRO
Hoje podem buscar minha cura.
Podem buscar minha palavra.
Podem buscar minha luz.
Mas eu não entrego mais minha alma
para salvar ninguém.
Minha medicina começa em mim.
Minha força pertence a mim.
Minha sombra caminha comigo.
E quando perguntarem:
“Quem é você?”
Eu mostrarei os olhos.
Mostrarei os dentes.
Mostrarei a chama.
E direi:
“EU SOU A ANTIGA SERPENTE.
E FINALMENTE
PAREI DE FUGIR DE MIM."