(Prelúdio)
Antes da primeira estrela,
antes do nome de Deus ser pronunciado,
existia o Uno:
luz e trevas respirando juntas.
Então ecoou no vazio:
> “Eu formo a luz e crio as trevas;
faço a paz e desperto o caos.”
E o universo despertou.
(Ato I — O Homem Fragmentado)
Nasci aprendendo a esconder partes de mim.
Chamaram minha raiva de pecado,
meu desejo de fraqueza,
minha sombra de maldição.
Sorri enquanto enterrava meus instintos
nos subterrâneos da alma.
Mas toda sombra esquecida
cresce no silêncio.
Então ouvi uma voz atravessando o templo:
> “Até tornares consciente o inconsciente,
ele governará tua vida.”
Era Jung,
abrindo os portões do abismo interior.
(Ato II — Kali)
Desci às profundezas
e encontrei Kali dançando entre chamas.
Negra como o vazio cósmico.
Bela como a verdade nua.
Ela usava colares de egos destruídos
e sorria como quem conhece o fim de todas as máscaras.
Então disse:
“Tu me chamas destruição
porque ainda amas tuas correntes.
Eu não destruo a alma.
Destruo a mentira.”
Ela colocou diante de mim
um espelho de obsidiana.
E nele vi:
minha inveja escondida na virtude,
meu orgulho vestido de humildade,
meu desejo de poder disfarçado de luz.
Pela primeira vez…
não desviei o olhar.
(Ato III — Shiva)
Então o céu do abismo se abriu.
Shiva surgiu dançando entre estrelas mortas,
serpentes e fogo azul.
Cada passo destruía universos.
Cada gesto criava novos mundos.
E ele declarou:
“A destruição não é o oposto da criação.
É parte dela.”
Compreendi então:
o mal inconsciente corrompe,
mas a sombra consciente transforma.
A raiva pode proteger.
O medo pode despertar.
O desejo pode criar.
Nada precisava ser negado.
Tudo precisava ser integrado.
(Grande Refrão)
Eu sou templo e tempestade,
oração e vulcão.
Carrego luzes celestiais
e abismos no coração.
Se Deus criou luz e trevas,
quem sou eu para me dividir?
Só encontra a própria inteireza
quem atravessa a noite sem fugir.
Kali dança em meu sangue.
Shiva desperta meu altar.
E aquilo que eu chamava sombra
veio para me libertar.
(Epílogo)
Agora compreendo:
a verdadeira iniciação
não é destruir a escuridão…
mas iluminar, conscientemente,
cada parte dela.