No dia em que me tiraram das Caxinas
O chão fugiu debaixo dos meus pés
Caiu o céu, caiu a vida
Caiu tudo o que eu era e queria ser
Meus sonhos viraram castigo
Meu futuro vestiu sofrimento
Meu coração gritava “fica”
Mas o mundo respondeu com desprezo
Pelo grande Rio Ave eu fiquei
Olhando a água correr sem mim
Quando parti, só soube chorar
Nem forças tive para lutar por amor ali
Anos passaram longe das Caxinas
Pesaram como correntes nos braços
Voltei à escravidão da vida dura
Trabalhando sem nome, sem espaço
A dor tomou conta de mim
Dia e noite eu a carregar
Sempre a chorar em silêncio
Com medo até de gritar
Eu era homem sem terra
Homem sem voz, sem lugar
Um corpo vivo a andar
Mas a alma ficou a sem descansar
E eu perguntava ao céu
Se fiz algo de errado
Porque me arrancaram dali
Como quem arranca um filho dos braços
Porquê… porquê…
Não me deixaram lá ficar?
Porquê… porquê…
Se ali aprendi a ser homem e a lutar?
Porquê… porquê…
Quem decidiu o meu destino?
Gritei por dentro, morri calado
Roubado do meu próprio caminho
Quando às Caxinas consegui voltar
As dores vieram dobradas
Ninguém sabia quem eu era
Meu nome perdeu a estrada
Tive de explicar quem sou
Com lágrimas presas na voz
Chorando por dentro, sorrindo fora
Para não cair de vez, só
Cada rosto estranho me feria
Cada olhar me fazia sangrar
Voltei à casa… mas sem casa
Voltei ao mar… mas sem mar
Ponte
Gritei “porquê” para a noite
E a noite não respondeu
Só o vento do rio Ave
Sussurrou tudo o que perdeu
Notei então, com dor profunda
Que o sofrimento tinha raiz
O próprio peso da vida
Já não me deixava ser feliz
Mais uma vez fui empurrado
Mais uma vez tive de sair
Mas mesmo longe das Caxinas
Meu coração insiste em fugir
Refrão 2 (mais forte)
Porquê… porquê…
Não me deixaram lá ficar?
Porquê… porquê…
Porque o amor não souberam respeitar?
Arrancaram-me da minha terra
Da água, do sal, do pão
Fizeram de mim estrangeiro
Dentro da minha própria nação
Hoje carrego o tempo no rosto
E o cansaço nos olhos cansados
Mas quando fecho os olhos à noite
Vejo as Caxinas ao meu lado
Vejo o rio, vejo o mar
Vejo o homem que fui ali
E pergunto se ainda há tempo
Para a vida me deixar voltar a mim
Refrão Final
Porquê… porquê…
Se tudo em mim quer voltar?
Porquê… porquê…
Se a minha raiz nunca saiu de lá?
Talvez um dia eu volte
Talvez não volte a partir
Talvez o mundo me perdoe
E me deixe… pra sempre… ficar
Ummm… ummm… ummm…
Caxinas…
Rio Ave…
A minha dor…
O meu lugar… talvez pra sempre ficar