Oooooo, oooooo, oooooo…
De manhã cedo já começa o peso
Cheff, queremos o trator 🚜
Ficou preso lá atrás no entulho
Agora é puxar puxar puxar com cuidado e suor
Mas tu chegaste a gritar primeiro
Nem pensaste no ferro nem no homem
Só abriste a boca, fogo e veneno
Como se gritar resolvesse o nome
Setenta motores, cheff, setenta!
Pro lixo foram todos parar
Não foi azar, não foi acidente
Foi má cabeça a mandar
E tu gritaste com o velho cansado
Homem de idade, mãos cheias de calo
Que deixou a vida do outro lado não veio pra te aguentar cheff
Veio pra cá buscar futuro e trabalho
Gritavas alto: “não vales nada!”
“Nem pro lixo serves, és zero!”
Mas os motores já lá estavam
Por culpa tua, não do obreiro
Tentaste esconder, disfarçar
Pensaste: ninguém vai notar
Mas no ferro fica a verdade
E a verdade não dá pra calar
Cheff, a merda que fizeste é clara
Não jogues lama em quem só quer pão
Respeito não se compra nem se manda
Respeito nasce do coração
Enquanto tu gritas de peito cheio
O homem cala, engole a dor
Mas cada silêncio é um veneno
Que mata lento o trabalhador
Ele pensa na casa distante
Na mulher, nos filhos a esperar
Pensa se valeu sair da terra
Pra aqui só ouvir te gritar
O trator parado, o tempo passando
O sol a bater sem perdão
E tu só sabes mandar e gritar
Sem ver gente, só ver pressão
Cheff, chefe não é quem humilha
Chefe é quem sabe responder
Quem erra assume, não pisa
Quem manda também tem de aprender
Setenta motores no lixo choram
Como prova do teu falhar
E tu apontas o dedo sujo
Pra tentar te safar
Oooooo, oooooo, oooooo…
No estaleiro fica a memória
De quem sofreu sem voz nem vez
Um dia a verdade sobe à tona
E grito nenhum cala outra vez irmão