O Frio e a Voz do Céu
Deus meu Pai, ainda me lembro
Depois de muitas horas no frio
Minhas mãos geladas, o corpo cansado
Só queria aquecer teu pão 🍞
Entrei devagar, buscando calor
Mas vieram os gritos como vento cortante
“Limpa já isso, não é teu!”
Como se o pão tivesse dono
Como se o calor tivesse patrão
Pai, todos gritavam comigo
Como se eu fosse o erro da sala
Como se minha fome fosse culpa
Como se minha presença pesasse no ar
Mas no meio dos gritos
Ouvi algo mais alto…
Não era voz de homem
Era o céu a sussurrar:
“Filho, traz uma paz
Já não pode falar
O silêncio também é força
Nem toda batalha é pra gritar.”
Levei o pão pra aquecer
Levei meu coração junto
E por um momento
Os gritos ficaram longe
Mas ele queria gritar
Precisava do barulho
Mandou uma alma deitar ao lixo
Só pra ter motivo de ferir
E quando o céu falou de novo
Suas palavras bateram no vento:
“Leva isso pra trás
Gasta muita energia…”
Como se a energia fosse dele
Como se o mundo fosse comprado
Como se o céu não visse
Cada gesto exagerado
Ele queria gritar
E continuou gritando
Mas eu já não ouvia igual
Porque dentro de mim
O céu estava falando
O frio estava fora
Mas o calor estava em mim
Quem vive só do grito
Cansa no próprio fim
Deus meu Pai, obrigado
Por me ensinar a calar
Porque quem guarda luz no peito
Não precisa gritar.