O Céu Estava Lá
Deus meu Pai, ainda me lembro
Daquela alma no escritório
Queria fazer-se lei na firma
Mandar no dia, mandar no choro
Veio ter com a gente de peito fechado
Palavras duras, frias, sem mão
“Vocês não assinam nada
Ou mandam embora, sem discussão”
Pai, naquele instante senti o medo
Mas não era o meu que gritava assim
Era o medo dele a tremer por dentro
Com medo de perder o poder sobre mim
Medo de não poder castigar
Medo de não crescer à pressa
Medo de outras almas dizerem “basta”
Ou de ouvirem a voz da justiça
Gritava alto para esconder
O vazio que trazia no peito
Quando a força não nasce do amor
Ela precisa do grito e do jeito
Falava, berrava, batia na mesa
Mas já ninguém queria ouvir
Quando o abuso perde a máscara
A verdade começa a surgir
Pai, meu Deus, o céu ouviu tudo
Cada palavra lançada ao ar
O céu não dorme, não fecha os olhos
Sabe a hora certa de falar
E o céu gritou sem levantar voz:
“Agora estás no lugar do teu temor
Onde o medo se levanta
Quando se vira contra o irmão”
O céu estava lá, Pai
Quando a mentira perdeu chão
O céu estava lá, Pai
Guardando cada coração
Quem manda sem amor cai sozinho
Quem cresce pisando não cresce, não
Porque o céu escreve devagar
Mas nunca erra a direção
O céu estava lá, Pai
E continua aqui
Com quem escolhe respeito
Mesmo quando é mais fácil fugir