VENENO NA PORTA (versão aumentada)
Pai, eu ainda me lembro
Do dia em que tentei falar
Não levei pedras na mão
Levei perguntas no coração
Disse apenas:
Irmão, qual é o teu problema?
Mas a resposta não foi diálogo
Foi porta, foi corte, foi frio
“Está ali a porta, podes ir embora
Eu estava aqui primeiro”
E naquele instante, Pai,
Eu senti que o lugar não era sobre espaço
Era sobre medo
As palavras dele ainda vivem
Aqui dentro, agora
Não como ódio
Mas como marca
De quem tentou calar
Antes que eu pudesse crescer
Pai, ele nunca me aceitou
Porque aceitar é dividir
E ele confundiu crescer
Com ficar por cima
Cresceu diminuindo
Cresceu ferindo
Cresceu apontando o dedo
Para parecer maior na sala
Criticava quem era bom de alma
Quem trabalhava em silêncio
Quem não gritava poder
Mas carregava verdade
Aumentava a voz
Porque tinha medo
Do que uma alma limpa
Poderia se tornar
Isso é veneno, Pai
Não se vê, mas entra
Não mata de uma vez
Vai cansando por dentro
Algumas almas resistem
Outras sangram caladas
Muitas não aguentaram o presente
E foram embora
Sem despedida, sem barulho
Eu vi amigos partir
Com a cabeça baixa
Não porque eram fracos
Mas porque ninguém nasce
Para viver respirando veneno
Todos os dias
Pai, eu fiquei
Não por orgulho
Mas por fé
Fiquei ferido
Mas fiquei inteiro
Porque aprendi contigo
Que justiça própria
Só cria mais feridas
Houve dias em que calei
Para não me tornar igual
Dias em que a raiva pediu voz
Mas o coração pediu calma
Respirei fundo
E entreguei a Ti
O que eu não podia carregar sozinho
Quem cresce com medo
Grita, acusa, empurra
Quem cresce com amor
Constrói, espera, sustenta
O poder que humilha
Faz barulho
O amor que é forte
Não precisa palco
Pai, eu sei
Que muitas portas se fecharam
Não porque eu era pequeno
Mas porque eu podia crescer
E isso assusta quem vive
Com medo da própria sombra
Hoje, se ainda estou aqui
É porque não aceitei o veneno
Preferi parecer fraco aos olhos dele
Do que perder a luz que Tu me deste
Não cresci pisando
Cresci resistindo
Se alguns foram embora
Leva-os no Teu cuidado
Eles não falharam
Só se cansaram
E Tu conheces o peso
Que cada alma carregava
Pai, guarda-me limpo
Num mundo que suja
Guarda-me inteiro
Num lugar que quebra
E se eu tiver que sair um dia
Que seja de cabeça erguida
E coração em paz
Porque quem tenta calar
Já perdeu por dentro
E quem fica fiel à verdade
Mesmo ferido
Já venceu