[Início – Introitus solitário, voz grave, quase falada, uníssono masculino]
Kyrie… eleison…
Leonardo… peccator…
Christe… eleison…
[Estrofe 1 – Melodia sobe lentamente, modo plagal, vozes em uníssono]
Ó Leonardo Monteiro,
filho outrora da luz,
amavas as apostas,
o baralho era teu Jesus.
No bandejão da faculdade
nunca pagavas o pão,
comias do prato alheio
e rias da confusão.
[Responsório – Coro grave, repetição ecoante]
Miserere… miserere…
Leonardo… vai perecer…
[Estrofe 2 – Melodia mais tensa, neumas longos, respiração lenta]
Passaste a perna em irmãos,
em amigos de coração,
mentiste, roubaste sorrisos,
vendeste a própria unção.
Na igreja eras o primeiro
a erguer as mãos ao céu,
mas saías pela porta dos fundos
com o dízimo no bolso teu.
[Glória menor – Sussurrado, com reverb eclesial]
Glória… já não tens…
Amigos… já não vens…
Igreja… te esqueceu…
Só resta… o escuro breu…
[Estrofe 3 – Clímax melancólico, notas longas descendentes, coro solitário]
Agora estás só, Leonardo,
sem mesa, sem lar, sem irmão,
a cidade te cuspiu na cara,
teu nome é maldição.
Vendes o último relógio,
a aliança da avó querida,
para uma mesa de poker
onde apostas tua própria vida.
[Longo Kyrie eleison – Repetido 7 vezes, cada vez mais lento e baixo, como um funeral, vozes graves em eco]
Kyrie… eleison…
Christe… eleison…
Kyrie… eleison…
(repetir 4x mais, fading)
[Estrofe final – Voz solitária, súplica fraca, uníssono final]
Ó Leonardo perdido,
o baralho não salva,
as fichas não perdoam,
o blefe não é palavra.
Quando tudo se acabar
e a última carta cair,
talvez lembres, entre lágrimas,
do Kyrie que um dia te ouviu.
[Termina – Único “Miserere mei, Deus” prolongado até silêncio, nota morrendo em reverb]
Miserere mei, Deus