Ummmm… ummmm… ummm, cheff
Três horas lá fora,
no frio que entra nos ossos
e não pede licença pra ficar.
Três horas a pensar
se o respeito ainda vale alguma coisa
quando só um lado sabe respeitar.
Chegas, falo direito,
olho nos olhos, voz contida.
Mas tu respondes seco,
como quem manda,
como quem pisa sem deixar ferida visível.
“É assim”, dizes tu,
“não sou obrigado a dizer nada.”
Mas querias ouvir “sim, cheff”,
querias o eco da obediência,
querias que eu me calasse
pra tua voz parecer maior.
Sim… tu querias o sim,
o sim forçado,
o sim com medo no peito.
Mas hoje não, cheff,
hoje a minha boca fechada
fala mais alto que qualquer respeito fingido.
Agora escuta bem,
mesmo que eu não diga nada:
quem tem o teu destino sou eu.
Não por vingança,
não por ódio barato,
mas porque o tempo virou a mesa.
Tudo ficou dito no silêncio,
tudo ficou claro no meu olhar.
Não precisei levantar a mão,
nem a voz,
nem a raiva antiga que tu semeaste em mim.
O teu comer está pronto.
Tem sal — como o suor das esperas.
Tem pimenta — como a dor engolida.
Tem cada noite em que me calaste
e cada dia em que me fizeste menor.
Só falta uma coisa no prato:
o teu ódio.
Esse gosto amargo de mandar,
de humilhar,
de achar que poder é fazer o outro tremer.
Isso eu te ajudarei a tirar, cheff.
Não com soco,
não com faca,
não com sangue nas mãos.
Mas com o espelho da verdade
onde vais ter de te ver sozinho.
Ummmm… ummmm… ummm
O frio ensinou-me a esperar,
a espera ensinou-me a aguentar,
e aguentar ensinou-me a vencer
sem fazer barulho.
Hoje não digo “sim, cheff”.
Hoje não digo nada.
Porque quando o silêncio pesa,
ele manda mais
do que quem grita.
E o dia chega, cheff…
sempre chega. Mesmo