“Nunca Mais”
Ummm… ummm…
Sou português,
filho de uma terra antiga,
onde o sol nasce bonito
mas a história pesa fundo.
Cresci pequeno
no meio de vozes grandes,
gritos na rua,
punhos erguidos,
promessas que enchiam o ar
e esvaziavam os pratos.
Diziam:
o povo unido jamais será vencido,
mas eu via o povo cansado,
via o medo escondido,
via a fome a aprender a calar.
Vivi o comunismo duas vezes,
não como ideia,
mas como vida apertada,
como infância roubada,
como futuro travado.
Depois veio o mar.
A partida.
A mala leve
e o coração pesado.
Brasil.
São Paulo.
Gigante de concreto.
Paulo Maluf.
Estradas vazias,
cidade corrida,
poder passando rápido
e o povo parado no mesmo lugar.
Ummm… ummm…
Trabalhei, calei, aguentei.
Vi homens se perderem.
Vi amigos sofrerem em silêncio.
Vi amigos morrerem
sem tempo de se despedir.
Vi a esperança virar cansaço.
Vi a verdade virar mentira.
Vi o medo virar regra
e a injustiça virar costume.
E agora o mundo chama isso de novo.
Chama de solução.
Chama de progresso.
Mas eu digo: não.
Não, não, nunca mais.
Nunca mais o passado disfarçado de futuro.
Nunca mais o ódio vestido de salvação.
Nunca mais o poder pisando gente
e chamando isso de ordem.
O mundo está esquecendo o sofrimento.
Está apagando os mortos.
Está brincando com a história
como se ela não voltasse para cobrar.
Mas eu lembro.
Eu vivi.
Eu vi.
Eu perdi.
Perdi amigos.
Perdi tempo.
Perdi partes de mim
que nunca mais voltaram.
Ummm… ummm…
Não falo por partido.
Não falo por bandeira.
Falo pela vida humana.
Falo pelos que ficaram no chão
sem voz e sem nome.
Que a memória seja arma.
Que a verdade seja escudo.
Que o povo acorde
antes que seja tarde.
Porque quando o silêncio vence,
a dor governa.
E quando a dor governa,
ninguém ganha.
Ummm… ummm…
Nunca mais ver crianças com medo.
Nunca mais ver amigos a cair.
Nunca mais repetir o inferno
só porque o mundo esqueceu.
Nunca mais.
Quero viver a ver amigos saindo perto de mim