Ummm… ummmm…
o mar chamou primeiro
Menino caxineiro imigrou
com o coração perdido
não levou ouro nem futuro
levou o medo escondido
Saiu das Caxinas em silêncio
a noite ainda por acordar
beijou a porta de casa
como quem pode não voltar
O rio ficou na memória
o sal colado à pele
a infância ficou para trás
numa rua sem nome nem pele
Ummm… ummmm…
partir também é morrer
ummm… ummmm…
sem saber se vais viver
Noutra terra tudo era frio
até o olhar do patrão
o nome virou difícil
o sotaque virou acusação
Chamaram-lhe estranho e intruso
mandaram baixar a cabeça
mas cada dia de trabalho
era mais uma promessa
Trabalhou com as mãos abertas
até o corpo se partir
cada calo era uma história
que ninguém queria ouvir
Ummm… ummmm…
há dores que não se explicam
ummm… ummmm…
há feridas que não cicatrizam
À noite falava com o mar
mesmo longe da maré
pedia força aos antepassados
pra não cair de pé
Menino virou homem longe
sem festa, sem proteção
aprendeu que a saudade
também constrói o coração
Viu amigos desistirem
viu outros se perder
viu o mundo ser injusto
com quem só quer viver
Ummm… ummmm…
ninguém volta igual
ummm… ummmm…
quando a partida é real
Se um dia voltar às Caxinas
não traz glória nem perdão
traz o tempo gravado no rosto
e o silêncio na mão
Vai andar pelas ruas
como quem anda no mar
cada passo é memória
cada esquina, um lar
Menino caxineiro imigrou
ferido, mas consciente
porque quem nasce das Caxinas
carrega a terra na mente
Ummm… ummmm…
o mar nunca se perdeu
ummm… ummmm…
vive em quem sobreviveu
Mesmo longe, mesmo cansado
mesmo sem chão garantido
o coração pode estar ferido
mas nunca ficou vencido.