[Verso 1]
Chef Europa na cozinha
Temperando o próprio medo
Luvas brancas, mãos vazias
Receita feita em segredo
Olha o prato, chama de vida
Mas o sabor é sempre igual
Servem dor bem repartida
Num jantar internacional
África chora no vapor
Que sobe lento da panela
Norte e Sul no mesmo fogo
Mas só um senta-se à mesa
Falam em paz, brindam tratados
Enquanto a fome é ignorada
Vendem calor, vendem status
Queimam a pele, salvam a fachada
[Pré-Refrão]
Dizes “ordem”, eu vejo saque
Dizes “ajuda”, eu vejo preço
Cada fronteira é um ataque
Cada acordo é um endereço
[Refrão]
Chef Europa
Prova do teu prato
Engole a fome que deixaste lá
Tu queres ver o mundo em cacos
Pra bem viver
Pra bem gozar
Chef Europa
Conta o teu pecado
Quem te ensinou a não sentir?
Tu queres ver o mundo em pranto
Pra bem viver
Pra não cair (hey!)
[Verso 2]
América ainda sangra
Cicatriz que nunca fecha
Colonialismo em nova embalagem
Mesma dor, nova conversa
Ouro preso em velha gandaia
Banco cheio, povo em pé
Mapa torto em cada testa
Quem manda nunca põe o pé
Dizes “é história”, eu digo “é agora”
O passado dorme no teu salão
Enquanto o Sul carrega a tora
Tu brindas alto com teu pão
Chamam miséria de estatística
Chamam mortos de colateral
Mas cada número tem um nome
Que nunca entra no jornal
[Pré-Refrão 2]
Quem segura a faca dita a lei
Quem lucra nunca quer saber
Se o mundo queimas, depois dizes:
“Não fui eu, deixa arder”
[Refrão]
Chef Europa
Prova do teu prato
Engole a fome que deixaste lá
Tu queres ver o mundo em cacos
Pra bem viver
Pra bem gozar
Chef Europa
Conta o teu pecado
Quem te ensinou a não sentir?
Tu queres ver o mundo em pranto
Pra bem viver
Pra não cair (oh, chef!)
[Ponte]
Panelas de ouro, mãos lavadas
Consciência limpa em água fria
Cada riqueza bem temperada
Veio de terra que não era tua
Falas de direitos humanos
Com muros altos e arame
Selecionas quem é humano
Pelo passaporte e pela fome
Quem foge da guerra é problema
Quem vende armas é solução
Quem pede pão é o dilema
Quem explora chama “visão”
[Verso 3]
O imigrante bate à porta
Com o mundo nas costas, cansado
Tu respondes com polícia
E um discurso bem ensaiado
Esqueces que foste invasor
Que cruzaste mares e chão
Hoje fechas o corredor
E chamas isso de nação
O fogo que acendes longe
Acreditas que não volta
Mas o mundo gira, responde
E a conta nunca fica solta
[Último Refrão – variação]
Chef Europa
Prova do teu prato
Sente o gosto amargo do que fizeste lá
Tu queres ver o mundo em cacos
Pra bem viver
Pra nunca pagar
Chef Europa
Rasga o teu contrato
Com a dor que finges não ver
Se o mundo cair da tua mesa
Não há talher
Que te vá proteger
[Outro]
Quando a fome entrar no teu salão
E o silêncio pesar mais que o ouro
Não peças perdão à história
Ela já escreveu o teu nome em fogo