Saí porta fora, cabeça a fumegar
Raiva no bolso, pronto pra arrebentar
Olhares de lado, mas ninguém diz nada
Porque sabem que se falam, levo a cara à pancada
Farto de tudo, sem dó nem paciência
Hoje se um farda me toca, dou-lhe ciência
Cabrões querem respeito mas nunca deram pão
Agora que rimo ódio, dizem que perdi a razão?
Vai-te foder tu, o teu crachá e a tua farda
A minha paz morreu, só ficou a raiva parda
Nem Deus me sossega, nem mãe me segura
Hoje vou ser o filho da puta que a rua jura
Ando com a cara trancada e o pulso tenso
Com um grito preso que só sai em verso denso
Já não sou puto com medo de errar
Agora erro de propósito só pra ver alguém chorar
Tenho a boca suja e o sangue nos dentes
Odiado por todos, mas real entre os ausentes
Queres amor? Compra flores, não barras
Aqui é só trauma, vício e caras esbarradas
Fui gentil, levei facadas
Fui calmo, levei cacetadas
Agora sou cão vadio com raiva cravada
Com flow que parte queixo e letra carregada
Sou canalha de serviço, filho da frustração
Cada rima minha é cuspida com intenção
Foda-se o mundo, foda-se o Estado
Se a justiça é cega, eu deixo um olho arrancado
Sou canalha de serviço, sem patrão nem patrulha
Se me virem na rua, mudem logo de rua
Sou faca no verso, sou murro no beat
Mais sujo que a política que nos fode sem limite
Mandei o profe mamar a reforma com gosto
Disse que eu era um falhado — meti-lhe no bolso
Agora rimo com ódio, com trauma e com fome
E se a paz tiver nome, eu cuspo esse nome
Amor não mora cá — mora a vingança
A esperança morreu, eu danço na matança
Tenho letras com cheiro a gás e a faca
E cada sílaba minha é um grito que ataca
Já fui mole, já fui burro, já baixei a cabeça
Mas hoje qualquer “shhh” vira bomba acesa
Tenho 16, mas falo como um cão velho
Já vi merda a mais, já rezei num espelho
Roubei merendas, levei porrada, fiz merda
Mas nunca lambi botas, nem vendi a alma lerda
Sou cria do ódio, fruto do abandono
E cada linha minha é um foda-se sem dono
Olha nos meus olhos — vês o quê?
Um puto fodido que já perdeu a fé
E mesmo assim escreve com o diabo na caneta
E manda pro caralho toda a conversa quieta
Rimo como quem cospe no prato
Como quem fura pneus de carros de contrato
Se não gostas do som, enfia no cu
Aqui é ódio cru, não é pop de iogurte nu
Sou canalha de serviço, rimo em tom de assalto
Cada verso meu tem cheiro a insulto alto
Foda-se os bons costumes e as boas maneiras
Tô cagando pras regras — só sigo bandeiras
Sou canalha de serviço, e o bairro é quartel
Sou general da merda, oficial do papel
Se morrer amanhã, deixo rimas em testamento
Pra cada filha da puta que ignorou o sofrimento