Depois da raiva, o vazio ganha espaço
A cabeça já nem raciocina — só traço
Olhos fundos, tipo poço sem fundo
Corpo vivo, mas o espírito noutro mundo
Foda-se o bairro, foda-se o clima
Só prédios a cair e janelas com racha fina
Na mochila só o caderno e uma lâmina
No peito só rancor, sem pinga de lágrima
Já nem sei se respiro ou se apenas aguento
Cada esquina traz um novo tormento
Farto de ver putos com olhar apagado
Sem futuro, sem nome, sem fado
Durmo vestido porque o frio entra por baixo
O vento passa pela janela como se fosse despacho
Mãe calada na sala com chá requentado
Pai na prisão — outro Natal cancelado
A esperança saiu pela porta sem chave
E a escola? Só mais um lugar onde a dor se agrave
Professores falam merdas sem peso
Nunca faltaram ao pão, nem ao tecto, nem ao mês indefeso
Cansado de ouvir merdas de quem nunca caiu
De quem fala de esforço mas nasceu no perfil
A minha realidade são tijolos com bolor
E a roupa estendida com cheiro a suor
Frio no osso, raiva no rosto
Cada passo carrega o peso do encosto
Foda-se o luxo, foda-se o conforto
Nasci no gelo, aprendi no desgosto
Frio no osso, mão no bolso
P’ra esconder o medo, p’ra fingir que não ouço
Gritos na escada, facas no cimo
E um puto a escrever como se fosse o destino
Não há planos, só esquemas improvisados
Cartões recarregáveis, bolsos rasgados
Cadernos com tinta a escorrer da raiva
E uma mãe a sorrir mesmo com faca na barriga
Farto de jantares com pão e atum
E de ver a tropa a cair, um por um
Já nem sei se isto é viver ou só fingir
Mas se morrer amanhã, ninguém vai impedir
Roubei no Lidl, corri pela saída
Com as câmaras a ver, mas com pressa da vida
Não há futuro sem ficha nem padrinho
E aqui a sorte é um cão sem focinho
A polícia passa devagar na zona
Olhos em cima como quem caça na lona
Chamam-nos delinquentes na televisão
Mas nunca ouviram a merda do coração
Eu sou o reflexo do que me deixaram
Sou o silêncio das noites que me calaram
Escrevo com raiva, sem filtro nem pose
Com a sujidade de quem perdeu a dose
Não sou exemplo, nem quero medalha
Quero justiça — nem que seja na fornalha
E se um dia alguém rimar o que vivi
Que não edite nada — que diga que morri
Frio no osso, alma de cimento
Na cabeça o som do último momento
Foda-se a sorte, foda-se o sistema
Aqui só rimo se a dor trouxer tema
Frio no osso, beat no fundo
Cada linha é murro no mundo
E se amanhã me apagarem do mapa
Que saibam que vivi sem abaixar a capa