Eu não me lembro da sua voz na adolescência.
Lembro só da presença.
Você passava pela mesma rua dos meus dias,
andava entre os mesmos rostos,
e nossa história se limitava a um cumprimento rápido,
daqueles que não prometem futuro.
A vida fez o que ela sempre faz.
Levou cada um para um lado,
colecionou erros, despedidas, silêncios,
e nos devolveu décadas depois através de uma tela iluminada.
Nenhum dos dois procurava amor.
Talvez procurássemos apenas descanso.
Mas aconteceu.
Sem estratégia.
Sem aviso.
Sem a maturidade que imaginávamos ter conquistado.
Havia magia.
Havia vontade.
Havia a sensação absurda de que o tempo tinha escondido alguma coisa para nós.
Só que o amor não chegou sozinho.
Trouxe feridas antigas,
medos antigos,
formas antigas de se defender.
Nós nos amamos.
E também nos atingimos.
Às vezes sem intenção.
Às vezes sabendo exatamente onde doía.
Dois anos depois, olho para nós e vejo duas pessoas cansadas tentando entender em que momento a leveza ficou para trás.
Já não fazemos tantos planos.
Já não existe a mesma urgência para contar cada detalhe do dia.
As conversas carregam o peso do que não foi resolvido.
As mágoas sentam à mesa antes de nós.
E a distância cresce mesmo quando ninguém vai embora.
Este não é um pedido.
Também não é uma despedida.
É apenas um alerta.
O amor que nos trouxe até aqui não consegue caminhar sozinho.
Ele não atravessa ressentimentos sem ajuda.
Não reconstrói confiança por insistência.
Não sobrevive apenas porque um dia foi bonito.
Eu ainda acredito em nós.
Mas acreditar deixou de ser suficiente.
Agora é preciso escolha.
Escolha diária.
Escolha dos dois.
Porque eu continuo enxergando a possibilidade daquilo que fomos capazes de criar.
Só não consigo carregá-la sozinho.
Se ainda existir um caminho,
ele precisa ser percorrido em duas direções.
Eu sigo disposto a encontrar esse lugar.
Mas somente se você também estiver vindo ao meu encontro.