Eu vendo o pão a chegar em
Barco do Pão
O barco do pão
chega devagar à casa,
traz no porão o sustento,
o fruto do suor calado,
o pão de quem trabalhou
com os pés feridos no chão.
O pão ficou guardado,
esperando a hora certa,
esperando a mesa simples,
a família, a partilha honesta.
Tempos depois,
o pão chega à mesa,
não como luxo,
mas como vida,
como promessa cumprida
de mais um dia vencido.
Então chega o homem do poder,
com passos pesados
e palavras afiadas.
Olha o pão
como se fosse dono do mundo
e diz sem tremer:
“Tu não vais comer.”
Mas Deus ouviu
cada sílaba fria,
cada palavra dita
sem alma.
E Deus respondeu
não com gritos,
mas com o silêncio que pesa:
“Estás a negar o pão
que não é teu.
Estás a negar o pão
que Eu dei.
O pão não nasce do poder,
nasce da mão que trabalha
e da fé que não desiste.”
Eu tremia, ferido,
com o coração apertado
e os pés ainda no chão da verdade.
O medo queria subir,
mas a fé falou primeiro.
E eu respondi,
olhando nos olhos:
“É com o teu dinheiro, lembra-te.
Hoje negas o pão,
amanhã a memória vai cobrar.
Quem fecha a mão hoje
abre o vazio amanhã.”
O homem riu,
pensando-se forte,
esquecendo que o tempo
não se compra.
Mas Deus não esquece
quem humilha o faminto,
quem rouba a dignidade
e chama isso de ordem.
Porque quem nega
o pão de Deus,
nega a própria luz.
E pode esperar,
em silêncio,
sem aplausos:
o seu dia vai chegar.