DEUS MEU PAI, A ALMA CANSADA
Deus meu Pai, ainda me lembro
Quando uma alma, com sinal no rosto,
Veio trabalhar com a gente
Trazia marcas na cara
E cansaço nos olhos
Era sempre aos gritos, Pai
Não por força — por perda
Trabalhava como grande
Mas tinha perdido o olhar
Já não via pessoas
Só ordens, só listas, só poder
Pai, ele ria enquanto escrevia
Uma lista grande demais
Não reparou que à frente dele
Estava uma alma cansada
De pé por obrigação
De pé por sobrevivência
Deus meu Pai, eu vi
Essa alma não conseguia ver a lista
Não era falta de vontade
Era peso demais nas costas
Era a vida a pedir descanso
E o mundo a negar
O nome… Donato, penso eu
Pai, guarda esse nome no céu
Porque na terra ninguém guardou
Nem o respeito
Nem a humanidade
Essa alma também foi castigada, Pai
Castigada por quem gritava
Castigada por quem mandava
Sem nunca aprender a cuidar
Eu vi, Pai
Quando o riso virou humilhação
Quando o trabalho virou castigo
Quando o poder virou cegueira
Mas o céu viu
O céu nunca perde o olhar
Deus meu Pai,
Quem escreve listas sem ver almas
Um dia não encontra o próprio nome
Escrito na paz
E a alma cansada…
Essa o céu recolhe devagar
Com silêncio, com justiça
Com descanso que ninguém deu cá em baixo
Amém.