De manhã cedo,
o sol ainda nem decidiu nascer
e eu já trago o trabalho colado ao corpo,
o cansaço a puxar-me para o chão
como se a noite nunca tivesse acabado.
Chego ao ponto,
olhos vermelhos, mãos gastas,
o silêncio era tudo o que eu queria,
mas o dia nunca pede licença.
Ao longe, risos soltos,
vozes altas a cortar o ar,
é o cunhado, dono do momento,
como se mandar fosse mais fácil meu cunhado te mandou curtar curtar curtar
do que perceber.
“Corta a relva, corta a relva,
só jardim, faz bem feito”,
repete como disco riscado,
como se eu fosse máquina
e não gente de carne e defeito.
Engulo a resposta,
porque nem toda verdade cabe na boca,
há palavras que pesam demais
para quem já chega sem força.
Entro no pátio cantando
fecho a porta como quem se fecha por dentro,
ligo o motor,
o som sobe, o peito também.
Ele grita lá fora:
“ baixa isso!” vou curtar curtar cheff
Mas ninguém pede
pra baixar o peso nas costas,
ninguém pede
pra baixar as horas mal dormidas,
ninguém pede
pra baixar a vida.
Então eu sigo.
Brrrrrr!
Merda, sim.
Brrrrrr!
Merda, sim.
O motor fala por mim,
fala do dia que ainda nem começou,
fala da paciência gasta,
do respeito que nunca chegou.
As ruas passam,
o barulho vira escudo,
quando o homem já não aguenta
é o ferro que grita tudo.
Não é raiva sem motivo,
é acúmulo, é pressão,
é viver sempre no limite
sem manual, sem perdão.
Se o som é alto,
é porque o mundo fala mais alto ainda,
se o motor ruge,
é porque a alma também ruge por dentro, ferida.
E sigo assim,
entre ordens, motores e pó,
tentando não virar máquina
num mundo que trata gente pior que pó.
Brrrrrr!
Merda, sim.
Hoje é só assim que dá.cheff