Acordei às 6 e 47, com o mundo a girar torto
Na cabeça, mil demónios — no peito, um aborto
Tô no meio da merda desde o berço
Com a alma feita em trapos e o futuro submerso
Fui Canallha de Serviço, sem máscara na cara
Cuspi verdades na linha, sem dó nem tara
Nunca pedi licença, entrei pela porta a arder
Se ninguém me quis vivo, agora vão ter que me ver
Levei o Frio No Osso como casaco de guerra
Com o coração gelado e a cidade em espera
Sangue No Bloco, irmãos tombam em silêncio
Mas cada queda deles ecoou no meu incêndio
Vi becos a chorarem nomes sem lápide
E vozes caladas num bairro sem mártir
Não fui herói — fui produto da tempestade
E mesmo sozinho, fui verdade
Cães Não Usam Gravata, ladram com poder
Mas eu lati do lodo, sem nada a perder
Enquanto eles mentiam na TV com sorriso
Eu escrevia a minha dor sem aviso
Chamei-lhe Karma Kósmico, não por ser zen
Mas porque quem fodeu vai provar também
O universo não esquece, o verso cobra
E eu fui a voz que rompeu essa dobra
Quando disse Ninguém Vem Salvar-me, era verdade crua
Nem pastor, nem polícia, nem fada da rua
Só eu e o caderno, com o grito engasgado
Fiz do fundo do poço um palco amaldiçoado
E quando soltei o Último Aviso, foi real
Ou saíam da frente, ou virava vendaval
Não foi ameaça — foi diagnóstico
De um gajo que viu tudo e ainda cospe lógico
O que fica?
Fica a hora, a revolta, a canallhice
Fica o frio, o sangue, o cão sem verniz
Fica o karma, a solidão, o aviso
E no fim... fico eu, ainda com juízo
O que fica?
Um álbum feito com punho fechado
Sem contrato, sem palco dourado
Fica o nome do gajo que nunca se curvou
E que na última faixa, ainda não calou
Não morri — renasci com cada som
Cada faixa foi tijolo no meu dom
Fiz do caos poesia, do lodo magia
E agora essa merda toca em toda a freguesia
Ficam os putos a ouvir com fones rasgados
Ficam os velhos a dizer “este fala pesado”
Mas eu falo a verdade que ninguém quer tocar
E isso, meu mano, ninguém vai apagar
O que fica?
Fica o álbum, faixa por faixa
Fica a mensagem, nua, sem graxa
Fica o eco de um gajo sem contrato
Mas que rimou com a alma em cada acto
O que fica?
Fica o legado, sem pedir licença
Fica a barra crua com consciência
E se um dia disserem que eu me vendi...
Mentem — eu só me dei, e morri daqui.
"De ‘6 e 47’ até aqui...
Cada faixa foi um degrau.
Não subi pra brilhar.
Subi pra que ninguém ficasse lá em baixo