O Menino da vila e o natal sem casa do pão
Correria, luzes piscando, enfeites, presentes e pessoas num vai e vem, tudo para deixar pronto em milhões de lares no mundo, a festa de natal. Celebraremos mais um nascimento do Deus que se fez carne e habitou entre os viventes. Esse mesmo Deus do antigo testamento já revelara o seu propósito de libertação do seu povo no Egito, levando-os para terra prometida onde jorrou leite e mel. Assim se celebrou a pascoa dos povos para que a libertação do cativeiro servisse de guia ás próximas gerações. Mais eis que os bezerros de ouro, a ganancia e o poder corrompeu todo projeto de sociedade livre e comum. Não bastavam mais a palavra, o entendimento e o verbo cravado em tabuas de madeira, o deus homem seria exemplo sem escrever uma palavra, arrastaria multidões.
Por qual caminhos então deveria aparecer o deus encarnado? Em suntuosos palácios? Em templos magistrais? Na capital Jerusalém? Definitivamente não. Belém na época nada mais era do que uma vila, onde pastores e camponeses sustentavam além de suas famílias, a opulência e o luxo dos impostos cobrados pelo império romano. Belém, do Hebraico a “casa do pão”, na periferia, deu os primeiros sinais, que somente os mais pobres e perseguidos entenderiam. Os pastores que levaram seus rebanhos a todas as terra por entenderem ser um bem comum eram tidos como invasores de propriedades, foram os primeiros a receber a boa nova.
Eis que sem escolta palaciana o rei dos humildes, no lombo de um jumento e não dos poderosos cavalos romanos, no ventre de sua mãe camponesa e na segurança do carpinteiro José, vive momentos de um “pré-natal” tenso, sob ameaça de pena de morte decretada pelo rei Herodes.
O menino jesus, já muito cedo, será taxado de vilão, pois nasce e vive em meio a moradores da vila de Belém, mais uma periferia, mais uma viela, mais uma favela. Sem teto, não tem lugar reservado ou com posses suficiente para ter um parto seguro e confortável. Num curral, nas áreas sobrantes, irregulares, encostas, beira de rio, que o Menino terá seu primeiro, mas incerto e provisório teto, pois em breve terá que fugir novamente.
Naquela noite escura, apesar de tanta injustiça e desigualdade o pão nosso, iluminou a casa de Belém, que se fez de igualdade e fraternidade entre os homens e mulheres. A boa nova já se fazia anunciar pelo profundo gesto humano de deus menino de que a libertação vira dos pobres, da periferia e aqueles e aquelas que bem aventurado partilham a vida com os pequenos do reino da terra.
Que nesse natal, depois dessa longa noite escura em que o povo brasileiro viveu, para além de presentes, mensagens de afeto e prosperidade possamos construir um cotidiano extraordinário com renascimento dos valores humanos, onde no centro desse presépio esta amor que se fez da luta e luz. A esperança que vem vestida de vermelho traga um bom velhinho de Guaranhuns a força para continuar semeando um projeto de opção preferencial pelo pobres como fez o menino de Nazaré.