Foda-se…
Mais um dia nisto, mano.
Brita nos olhos, cal nos pulmões…
Mas quê? Vida é esta.
Tamos na puta da obra.
[Refrão]
Tamos na obra, martelo a bater
Foda-se o chefe, é só p’ra nos foder
Cimento nos dentes, sem tempo a comer
A vida dá murros, nós vamos responder
Sol na cabeça, calos na mão
O país que se foda, ninguém dá-nos pão
Trinta paus por dia? Isso é escravidão
Mas seguimos duros, sem pedir perdão
Levanto-me roto, olheiras na cara
Mais um dia a levar com merda na cara
Chego à obra e é só gritos e carga
Mas ninguém me quebra, tenho alma rara
Fumo no canto só pra desligar
Cabeça longe, mas tenho que empurrar
Coração de ferro, vou continuar
Mesmo quando o corpo já quer bazar
Prometem tudo, depois cospem na cara
Falam de mérito, mas metem-nos na vara
Trabalho no osso, suor que não para
E no fim do mês só sobra a migalha
Chegam de fato, a dar lição
Nunca pegaram numa pá, nem sabem o chão
Nós é que somos base da nação
Mas tratam-nos como ralé do cão
Tou a cagar se alguém me respeita
Respeito sou eu que trago na carteira
Sou trolha com garra, sem play na receita
Cada tijolo é mais uma letra
Tamos na obra, martelo a bater
Foda-se o chefe, é só p’ra nos foder
Cimento nos dentes, sem tempo a comer
A vida dá murros, nós vamos responder
Sol na cabeça, calos na mão
O país que se foda, ninguém dá-nos pão
Trinta paus por dia? Isso é escravidão
Mas seguimos duros, sem pedir perdão
Caguei no diploma, caguei no patrão
Caguei nessa merda de opinião
Tou na lama, mas levo visão
Cada parede é revolução
E se um dia cair, vou cair de pé
Com cimento nas veias e sangue na ré
Tamos na obra, e se ninguém nos vê
Foda-se tudo, eu rimo até morrer
Lá fora é fachada, cá dentro é tensão
Betão e suor, sem qualquer proteção
Mas cada parede é nossa expressão
Fazemos do nada uma construção
As botas rotas, mas caminho erguido
Nesta selva dura, nunca fui vencido
Berbequim na mão, cada furo é um grito
Do trolha lixado, mas nunca rendido
Chão a tremer com o peso da luta
Vivem lá em cima, só veem disputa
Nós cá em baixo, é na carne a batuta
Mesmo no pó, fazemos vitória
Vejo o Zé a tossir, mas diz que tá bem
Porque o miúdo em casa quer pão também
Prometem saúde, respeito e mais
Mas só dão lodo, nunca dão paz
Fiscal aparece com pose de rei
Pergunta por botas, capacete e lei
Mas nunca pergunta quanto é que levei
Só quer saber se o patrão já paguei
A rádio dá música, mas nada me toca
É só barulho na alma que sufoca
Mas eu não paro, sou pedra no trilho
Sou guerreiro suado, pai de um filho
Ouvem-se tiros no bairro ao lado
Aqui só rebenta o aço dobrado
Tantas promessas que o tempo levou
Mas nenhuma pá tirou-me quem sou
Se morro na obra, ninguém vai saber
Mais um trolha anónimo a desaparecer
Mas a parede ficou, isso podem ver
Tamos na obra, martelo a bater
Foda-se o chefe, é só p’ra nos foder
Cimento nos dentes, sem tempo a comer
A vida dá murros, nós vamos responder
[Fim]
…e amanhã é igual.
Cala-te e mete massa.
Tamos na puta da obra.
Agora vou mandar uma cagada.
Fim.