Eu lembro da infância sem luxo, sem nada
Só a fé da minha coroa e o pão da madrugada
Tênis rasgado, sonho intacto
Enquanto o mundo duvidava, eu traçava o meu pacto
Brinco na viela, com o olhar de quem sonha
Mas já via nos olhos dos cria, a vida medonha
Os menor querendo ser patrão antes dos vinte
Sem saber que o fim da pressa é grade ou é cemitério triste
Passei perto do erro, mas escolhi o certo
Mesmo com o bolso furado, meu foco era concreto
Não vendi minha alma por fama, nem por aplauso
Preferi o corre limpo do que um fim precoce e raso
Tanta noite fria, sem gás no fogão
Mas nunca faltou amor e nem oração
Meu pai ausente, a responsa veio cedo
Cresci na marra, na quebrada, sem brinquedo
Mas nunca fui sozinho nessa caminhada
Quem colou no início, hoje vive a virada
E quem duvidou, cê já sabe onde tá
Enquanto eu fecho show, eles só sabem falar
Hoje é champanhe na mesa, carne no prato
Mas meu coração ainda bate no mesmo compasso
Os cria tão do lado, brindando comigo
Porque quem acreditou, tá vivendo o perigo do sonho vencido
Do barraco pro palco, eu levo a favela
Tipo luz que clareia até onde ninguém espera
Hoje é nóis de Lacoste, sorriso estampado
Mas sem esquecer quem tava quando era só fardo
Fechei contrato, virei manchete
Mas não precisei mudar meu dialeto, nem fazer promessa
Continua o mesmo sotaque, o mesmo jeito
Só mudou o endereço e os números na conta, sem despeito
Mãe com casa própria, irmão na faculdade
Isso sim é vitória, não é só ostentação de verdade
E cada linha que escrevo, é tijolo no castelo
Erguido com suor, não com atalho paralelo
Vejo os falso amigo surgindo na vitória
Mas onde tavam quando era só derrota e escória?
Querem sentar na mesa, mas nunca lavaram louça
A vida ensina a separar quem é raiz e quem é pose
Não julgo quem tá no corre, cada um com sua dor
Só peço pra não vender a alma por favor
Hoje eu sou exemplo pra uns, ameaça pra outros
Mas sigo blindado com fé e meus manos soltos
Já vi vários subir e se perder no brilho
Eu sigo com os pé no chão, foco no trilho
Dinheiro muda as coisas, mas não muda a essência
E quem tem visão não troca honra por aparência
Já chorei calado, hoje canto sorrindo
Mas minha luta tá na pele, eu não minto
Cada cicatriz virou parte do plano
E quem ficou comigo, hoje tá colhendo os grãos
Não foi sorte, foi fé, foi suor e coragem
E cada degrau foi suado na margem
Hoje é som no talo, favela cantando
E os que duvidaram? Tão só observando
Coração blindado, mente focada
A visão de cria hoje é meta alcançada
Mas o jogo não para, é só o começo
Do menino sonhador ao dono do próprio endereço
Ninguém mais cala a voz de quem veio do nada
Hoje a quebrada tem voz, tem espaço na estrada
E eu sigo rimando, contando essa verdade
Pra mostrar que o favelado também pode ter liberdade.