O bairro cheira a mofo e a pólvora
Puto no telhado com cara de revolta nova
Cada tijolo tem nome gravado
E cada esquina já viu mais corpos que o Estado
As portas têm grades, mas não há prisão
Quando a fome bate, a regra é a agressão
Não há leis — só códigos de quem sente
E quem não cumpre, acaba dentro do cimento
A noite cai como punhal nas costas
E a rua ensina que confiança é aposta
Já não ando com medo — ando armado
Com a caneta na mão e o passado cravado
Ouvi gritos no pátio, mas já não corro
A minha alma já morreu no primeiro soco
Os mais novos crescem com faca na mochila
E um sonho de iPhone pago com vida
O bloco sangra sem dar nas vistas
E a polícia aparece só pra fazer listas
Foda-se os senhores de terno e conversa
Que falam de paz sem pisar esta merda
Odiamos todos — desde o padre ao ministro
Porque rezar aqui é só mais um vício
E mesmo os justos já perderam a fé
Porque o sangue no chão não seca com café
Sangue no bloco, cheiro a miséria
Cada passo meu é bala na artéria
Foda-se a escola, foda-se o doutor
Aqui aprendemos com dor e suor
Sangue no bloco, tinta no papel
Cada verso meu é sentença no céu
Se Deus existe, deve ser surdo
Porque o grito do gueto já nem sai do fundo
Já vi putos com talento ser levados
Porque rimavam verdade e não tinham aliados
Já vi mães vender tudo por comprimido
E putos virar sombra no próprio abrigo
O bloco ensina que o tempo é veneno
E que o silêncio mata mais que veneno
Aqui não se vive — só se sobrevive
E o amanhã é um luxo que ninguém define
Oiço passos no corredor e fico tenso
Já nem o sono é refúgio, só suspenso
Cada noite é guerra com mais uma dose
E cada manhã começa com rugas precoce
A escola é palhaçada com quadro partido
O professor só quer ordenado garantido
E eu? Só quero que alguém me veja
Não como estatística, mas como centelha
Mas foda-se isso, já é tarde demais
A vida esmurrou tudo o que era paz
Agora só resta a caneta e o beat
E cada linha minha é faca no elite
Eu cuspo pra quem tem o mundo nas mãos
E ignora os gritos dos becos sem pão
Sangue no bloco, mas flow imortal
Porque aqui morremos cedo — mas rimos no final
Sangue no bloco, sem ambulância
Cada queda é parte da infância
Foda-se o futuro, foda-se a lei
Se a justiça é cega, eu meto-lhe a grei
Sangue no bloco, graffiti na parede
Cada barra minha é grito de sede
E se a caneta for arma, eu carrego até ao fim
Porque quem sangra escreve — e quem escreve não tem fim