DEUS MEU PAI, A LIÇÃO DO PEIXE
Deus meu Pai, ainda me lembro
De dizer: gente, não deitem peixe ao lixo
O pão do mar não se ri
Mas riram de mim, Pai
Riram alto, como se a vida fosse sobra
Deus meu Pai, o homem do poder
Com palavras frias me cortou
“Aqui não mandas nada”
Eu calei, Pai
Calei para não perder a luz
Calei para não virar pedra
Tempo depois, Pai
O peixe do lixo voltou em verdade
Veio em moscas, em sinais
Foi bom, Pai — o mundo precisa de natureza
A terra responde quando é ferida
Mas eles, Pai, tiveram nojo da resposta
Nojo da vida a nascer do erro
Bichinhos no chão, Pai
Bichinhos nas paredes
Bichinhos nas janelas
Bichinhos em todo lado
E eu pensei: a lição chegou
Mas quem limpou, Pai?
Não foi ele
Não foram os familiares dele
Fui eu, Pai
E outras almas castigadas
As mesmas que sempre limpam
As mesmas que carregam o silêncio
Nós limpámos, Pai
Sem gritos, sem riso
Com respeito pela criação
Porque negar o pão
Volta em forma de verdade
O poder ri por um momento
Mas a vida ensina devagar
Quem despreza a natureza
Aprende com ela a falar
Deus meu Pai, guarda essas almas
As que limpam o que não sujaram
Porque o céu vê
E o céu não esquece