[Intro]
Eles não te mostram isso aí
Né?
Muda de canal
Muda de assunto
Mas a rua
A rua não muda
Não
[Verse 1]
Na viela estreita
Água marrom corre
Criança brinca em poça que fede a morte
Mãe com garrafa pet
Fila no caminhão
Pede um pouco d’água
Recebe humilhação
Teto de amianto ferve meio-dia
Dentro do barraco
Gás já virou magia
Quando tem mistura é festa na panela
Arroz quebradinho
Feijão feito novela
Velha na janela conta o mesmo caso
Filho foi pra “obra”
Voltou em pedaço
Caiu do andaime
Salário atrasado
Patrão fez discurso
Não pagou o estrago
[Chorus]
Isso não tá no jornal da noite
Não entra no corte do seu feed
Não
É o grito preso no busão lotado
É a conta cheia e o bolso furado
Irmão
Essa é a parte que ninguém comenta
A vida crua que ninguém quer ver
Brasil que sangra e ri ao mesmo tempo
Entre a rua e o que passa na TV
[Verse 2]
Marmita azeda em cima da bancada
Trampo de doze horas
Carteira rasgada
Chefe dá sorriso
Fala em “família”
Na hora da bronca vira armadilha
Moça na catraca
Três ônibus por dia
Cruza a cidade inteira por mixaria
Sonha em curso técnico
Num canto do caderno
Números rabiscados
Futuro incerto
No posto de saúde
Senha que não anda
Gestante desmaia
Ninguém dá banda
Atende um
Atende dois
Médico já de saída
Foto pra campanha
Tipo obra concluída
No morro lá em cima
Luz de gambiarra
Gato na energia
Risco que não acaba
Quando chove forte
Sirene lá embaixo
Desliza barro
Casa vira só caco
[Chorus]
Isso não tá no jornal da noite
Não entra no corte do seu feed
Não
É o grito preso no busão lotado
É a conta cheia e o bolso furado
Irmão
Essa é a parte que ninguém comenta
A vida crua que ninguém quer ver
Brasil que sangra e ri ao mesmo tempo
Entre a rua e o que passa na TV
[Bridge]
Tem menino gênio somando trocado
Na fila do farol
Vidro levantado
Moça que fazia poema em guardanapo
Agora faz milagre em meio turno e bico chato
Tem senhor que construiu metade da cidade
E hoje vende bala
Quase sem vontade
Olho marejado
Mão que ainda treme
De tanto apertar ferro
Tijolo
Corrente
Tem pastor gritando “fé resolve tudo”
Enquanto mãe junta moeda no escuro
Tem carro importado furando o sinal
E um corpo estendido virando normal
[Verse 3]
Mas também tem riso em mesa improvisada
Churrasco de pé
Alegria emprestada
Caixinha de som furada na calçada
Dança
Abraça forte
Esquece a porrada
Tem mulher que move o bairro inteiro
Faz mutirão
Transforma o terreno
Planta hortinha em espaço esquecido
Divide tempero
Divide o abrigo
Professor cansado
Olho vermelho
Leva livro usado
Vira espelho
Mostra pro moleque que existe outro mapa
Que a quebrada também tem quem escapa
Política entra só de quatro em quatro ano
Promete asfalto
Praça
Plano
Depois some rápido
Feito chuva fina
Só deixa lama
Buraco
Esquina
[Chorus]
Isso não tá no jornal da noite
Não entra no corte do seu feed
Não
É o grito preso no busão lotado
É a conta cheia e o bolso furado
Irmão
Essa é a parte que ninguém comenta
A vida crua que ninguém quer ver
Brasil que sangra e ri ao mesmo tempo