Nasci onde o mar é quente
e o sol não pede licença
mas trago no peito um canto
que não sabe da minha terra
Não cresci entre vielas
nem aprendi a chorar baixo
mas há uma dor que me chama
como se fosse do meu bairro
Dizem: “isso não é teu”
“esse canto vem de longe”
mas a saudade não pergunta
de que lado nasce o homem
Sou ilha que canta fado
sem saber bem porquê
talvez toda dor profunda
fale a mesma língua em pé
No meu sangue há tambor
há sal, há vento e paixão
mas à noite o que me salva
é esta voz em contramão
Não sou de Lisboa antiga
nem da noite em Alfama
sou de um cais diferente
onde a perda também chama
Canto fado sem permissão
sem escola, sem lugar
não é costume herdado
é necessidade de aguentar
Se erro o sotaque da dor
é porque a dor não tem pátria
há corações que nascem ilhas
mas morrem cheios de ausência
E se um dia me perguntarem
quem me ensinou a cantar
direi: foi a falta de tudo
e a vontade de ficar