Não herdei esta tristeza
nem veio no meu apelido,
foi ficando em cada escuta,
em cada copo partilhado e perdido.
Aprendi a dor sentada,
à mesa de quem partiu,
ouvindo vozes cansadas
que o tempo nunca curou nem mentiu.
Não me chamem estrangeiro
do que dói sem tradução,
há silêncios que atravessam
mais fundo do que a nação.
Aprendi a cantar assim,
sem sangue, sem juramento,
foi o ouvido que me ensinou
a medir o sofrimento.
Se o fado não corre em mim,
bate à porta do meu peito,
não nasceu do meu passado
mas ficou do jeito perfeito.
O mar nunca pede nome
pra ensinar alguém a ir,
leva histórias de outros lados
e ensina a quem quer sentir.
Cantei dores que não vivi,
mas reconheci no olhar,
porque a saudade emprestada
também sabe se instalar.
Há quem nasça com destino,
há quem o aprenda a guardar,
eu segui vozes antigas
até a voz me encontrar.
Aprendi a cantar assim,
na escuta, não na raiz,
há verdades que escolhem
quem as saiba dizer feliz.
Se não trago essa herança
no corpo ou na certidão,
trago-a firme na garganta
como última devoção.
Não peço lugar à mesa
nem desculpa por sentir,
o fado não pede licença
quando decide existir.
Aprendi a cantar assim,
com respeito e solidão,
não é sangue que faz o fado
é silêncio e atenção.
Se a dor reconhece a voz
quando começa a soar,
então sou filho da escuta
e disso não vou abdicar.