Partimos novos demais para entender,
Um beijo da mãe, sem saber voltar a ver,
No cais ficou Portugal inteiro a chorar,
Enquanto o mar nos ensinava a calar.
Fardas largas em corpos de vinte anos,
Medos escondidos, sorrisos enganos,
Chamaram dever ao que era destino,
E fizeram de um rapaz… um homem menino.
Angola ardia no sol da manhã,
Guiné era lama, silêncio e emboscada,
Moçambique cantava noites sem fim,
E a guerra morava dentro de mim.
Éramos filhos da mesma nação,
Com medo escondido no coração,
Obrigados a lutar, a matar pra viver,
Sem nunca aprender a esquecer.
Ficaram amigos no tempo perdidos,
Nomes gravados nos sonhos feridos,
Voltámos vivos… mas ninguém viu
Que parte de nós lá ficou, e partiu.
Cartas escritas à luz da saudade,
Promessas guardadas contra a ansiedade,
Ríamos alto para não enlouquecer,
Porque o silêncio fazia morrer.
Na mata aprendemos o peso do olhar,
Quem ontem falava já não vai voltar,
Enterrámos irmãos sem nome nem cruz,
Só a lua sabia quem perdeu a luz.
O rádio distante falava em vitória,
Mas ninguém contava a nossa história,
Entre ordens, tiros e solidão,
Cada noite roubava um coração.
Éramos filhos da mesma nação,
Com medo escondido no coração,
Obrigados a lutar, a matar pra viver,
Sem nunca aprender a esquecer.
Ficaram amigos no tempo perdidos,
Nomes gravados nos sonhos feridos,
Voltámos vivos… mas ninguém viu
Que parte de nós lá ficou, e partiu.
E quando a guerra acabou finalmente,
O país seguiu… indiferente,
Medalhas guardadas numa gaveta,
Memórias que o tempo não aquieta.
Chamaram passado ao nosso sofrer,
Mandaram calar, aprender a viver,
Mas há batalhas que nunca têm fim,
Continuam em nós… dentro de mim.
Éramos jovens chamados irmãos,
Levados pelo dever nas mãos,
Entre a pátria, a dor e o querer voltar,
Aprendemos cedo a não chorar.
Hoje esquecidos pela própria terra,
Sobreviventes de outra guerra,
Mas quando o vento sopra ao luar,
Ouvimos os que ficaram chamar.
Somos os rapazes que o tempo não levou,
A guerra acabou… mas nunca terminou.