CHUVA NO EMPILHADOR
Deus meu Pai, ainda me lembro
Quando o céu mandou chuva forte
Eu estava lá fora, a trabalhar
No empilhador, firme na sorte
A água caía sem pedir licença
Molhava a pele, pesava o chão
Mas eu seguia, com fé e silêncio
Porque o pão não espera, Pai, não
Veio o amigo do homem do poder
Dizer que na chuva não trabalhava
Falou baixinho, por trás da verdade
E o favor ali se armava
Pai, ele veio até mim
Tirou-me fora do empilhador
Deu o lugar ao amigo
Como se eu não tivesse valor
Mas o céu tudo vê, meu Pai
E o céu não esquece ninguém
Depois vi o amigo lá dentro
No empilhador que era meu também
Meu sangue ferveu, confesso
Saí e fui ter com ele
Minhas palavras foram claras, Pai:
“Sai daí, isso não é justo, não me fere”
Ele respondeu: “Vai falar com o poder”
Como quem lava as mãos da dor
E eu fui, Pai, com raiva no peito
Mas com a verdade no olhar e na voz
Disse: “Epa, estás a brincar comigo?
Tiras-me dali pra dar ao teu amigo?”
O silêncio caiu pesado no ar
Como chuva grossa a castigar
E ele respondeu sem vergonha
“Safte com ele”, sem olhar pra trás
Mas o céu anotou cada gesto
Cada mentira, cada desigualdade a mais
Porque quem troca justiça por favor
Pode mandar hoje, mas cai amanhã
A chuva passa, Pai, a verdade fica
E o céu sempre chama quem fere o irmão