*Ela na janela*
O sol da manhã invadia a sala com uma ousadia silenciosa, desenhando contornos dourados sobre o chão de madeira e sobre a cortina que ela segurava com descuido. Estava de costas, cabelos negros escorrendo como seda pelas omoplatas, ainda úmidos do banho apressado. A cidade lá fora parecia distante, quase cenográfica — um conjunto de casas perfeitas, jardins milimetricamente podados, e um céu sem nuvens que não combinava com o turbilhão que ela sentia por dentro.
A noite anterior ainda pulsava em sua pele. Não havia nome, nem promessas. Só um corpo que soube ler o dela como se fosse poesia. E agora, ali, no décimo sexto andar, envolta pela cortina que cobria mais do que o tecido permitia, ela contemplava o horizonte como quem tenta decifrar o próprio desejo.
Não era arrependimento. Era curiosidade. Uma vontade de repetir, talvez. Ou de escrever sobre aquilo — transformar em crônica o que o mundo chamaria de imprudência, mas que ela sabia ser liberdade.