Fumo nos olivais,
fado chorando no cais —
ela levou o mar.
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[Verso 1]
Homens de ouro ao dedo
chamavam: menina perdida
na chuva azulada.
Gatos de Lisboa
viam carros deslizando,
o Tejo sem voz.
Pó branco nos copos,
vinho tinto sobre a mesa,
anjos foram embora.
Velhas sussurravam:
“Filha, o lobo vem sorrindo.”
Mesmo assim entrou.
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[Refrão]
Ai, Maria do Mar,
filha da lua ferida,
cruzaste fogo nua.
Ai, Maria do Mar,
nem os santos te prenderam —
aprendeste o mar.
O mar nunca pergunta
de que porto vem a dor.
Só pergunta: “Navegas?”
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[Verso 2]
Castelos na neve,
máscaras, facas de prata,
velas morrendo.
Salas sem janelas,
homens fingindo ser reis,
medo vestido em seda.
Memórias turvas,
perfume e gasolina,
risos como arame.
Dentro do seu peito
um pequeno pássaro vivo
recusava morrer.
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[Ponte]
Dormiu sob as pontes,
jornais cobrindo o inverno,
vendo trens rezarem.
A lua deu pão.
Cães de rua aos seus pés,
ninguém olhou abaixo.
Numa manhã do Porto,
lavou o rosto no mar
e perdoou-se enfim.
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[Refrão]
Ai, Maria do Mar,
filha da lua ferida,
cruzaste fogo nua.
Ai, Maria do Mar,
nem os santos te prenderam —
aprendeste o mar.
O mar nunca pergunta
quem te deixou ao anoitecer.
Só pergunta: “Cantas?”
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[Verso 3]
Trinta e quatro anos
ao lado de um homem fumaça —
amor também perde.
Quando ele partiu,
o silêncio bateu forte
como sinos vazios.
Mas tristeza varre.
Depois de tantas salas,
a luz volta mansa.
Plantou tomates,
alimentou gatos velhos,
aprendeu dormir.
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[Refrão Final]
Ai, Maria do Mar,
tuas mãos cheiram a pão,
não mais medo e pó.
Ai, Maria do Mar,
teu coração já não ajoelha
aos reis feitos de cinza.
Fado sopra ao vento,
roupas dançam nas varandas —
o mundo continua.
E a menina vendida
virou velha rindo leve
diante do Atlântico.