Quando saio do trabalho eu afundo outra vez
O mundo cala, sobra o peso nos pés
Sorrisos ficam presos no cais
Levo o silêncio comigo, nada mais
Entre paredes que sabem o meu nome
A solidão chama e nunca some
Sou alguém enquanto as luzes estão acesas
Depois sou sombra, sou correnteza
Aqui em baixo não há perdão
O medo nada em círculos à minha mão
Sinto o sangue a marcar o chão
Eles cheiram dor, não têm coração
No fundo do mar eu aprendi a sangrar
Com tubarões a ensinar-me a lutar
Se eu parar, eu sei que vou cair
Aqui ninguém vem para me salvar
No fundo do mar, sozinho a nadar
A vida morde, eu tenho de aguentar
Sou ferida aberta a aprender a viver
Ou fico forte… ou deixo de ser
Tenho nome enquanto alguém pergunta “tás bem?”
Mas ninguém quer ouvir o que me faz refém
Quando a porta fecha atrás de mim
Começa a guerra que não tem fim
Os dias passam como ondas partidas
Levo no corpo histórias mal curadas
Cada amor que morreu no caminho
Deixou dentes cravados em mim
Não há luz onde eu caí
Só instinto a dizer-me “segue aqui”
O medo ronda, quer-me ver parar
Mas eu ainda sei nadar
No fundo do mar eu aprendi a sangrar
Com tubarões a ensinar-me a lutar
Se eu parar, eu sei que vou cair
Aqui ninguém vem para me salvar
No fundo do mar, sozinho a nadar
A vida morde, eu tenho de aguentar
Sou ferida aberta a aprender a viver
Ou fico forte… ou deixo de ser
Se eu subir, será que há ar?
Ou só mais um lugar para falhar
Tenho cicatrizes que não vão sarar
Mas ainda há fogo para queimar
Ainda há fogo para queimar
No fundo do mar eu não vou morrer
Eles tentam, mas eu sei sobreviver
Que se pintem as águas de vermelho
Eu continuo, mesmo de joelhos
No fundo do mar, eu fiz de mim arma
Aprendi a viver sem calma
Se ninguém vem para me salvar
Então sou eu… eu vou ficar
Quando saio do trabalho eu afundo outra vez
Mas ainda nado…
Mesmo ferido…
Mesmo sem vez.