Vou a caminho, o frio pesa em mim,
o vento corta a cara, corta o fim.
Cada passo é um peso no chão,
o corpo anda, mas treme o coração.
Chego lá… portas fechadas,
olho em volta, ruas caladas.
Penso comigo: o que se passa aqui?
Ninguém está, só eu e o frio em mim.
O tempo passa devagar, cruel,
o relógio ri, o céu parece fel.
As mãos duras, o corpo a gelar,
trabalho à espera, sem começar.
Mais tarde chega o meu cheff,
cara de riso, sem stress.
Olhar leve, alma vazia,
como se a minha dor fosse poesia.
Eu só digo: isto é assim,
nem uma palavra soube sair de mim.
A garganta fechou, o orgulho também,
há silêncios que gritam mais que cem.
Disse que era mais tarde pra começar,
como se o frio não soubesse matar.
Gostou de me ver ali a congelar,
feito boneco, feito alguém sem lugar.
Por dentro pensei, mas não falei,
há coisas que a raiva escreve melhor que a lei.
Um dia vais pagar sem sequer notar,
a vida cobra sem avisar.
Toda a merda cai sempre na fossa,
não há mentira que fique grossa.
Meu amigo, podes bem contar,
ninguém foge ao que vem cobrar.
Hoje sou eu no frio a esperar,
amanhã é o mundo a te gelar.
Porque quem brinca com o sofrimento alheio
acorda sozinho no próprio medo.
O frio passa, eu sigo em frente,
mas a memória fica, dura, presente.
E quem ri da dor sem compaixão
escorrega um dia na própria mão.