Verso I
A casa suspira no escuro,
o chão conhece meus passos,
a lua entra sem pedir
e me encontra aos pedaços.
Há um caderno sem destino
aberto em cima da mesa,
nele escrevo o que não coube
na pressa da delicadeza.
Pré-Refrão
É tarde demais pra mentir,
cedo demais pra partir,
nesta hora sem nome
aprendo a não fugir.
Refrão
Converso com quem eu fui
quando a cidade se ausenta,
a noite não me julga
apenas senta e aguenta.
Digo verdades sem forma,
sem palco, sem perdão,
há silêncios que só vivem
quando se apaga a razão.
Verso II
O tempo bate nos vidros
como quem pede abrigo,
trago culpas emprestadas
e deixo o resto comigo.
Há promessas mal fechadas
a sangrar devagar,
não gritam, não exigem
só cansaram de esperar.
Pré-Refrão
Não é tristeza inteira,
nem coragem por fazer,
é o peso exato da vida
quando decide aparecer.
Refrão
Converso com quem eu fui
sem pressa de resolver,
há perguntas que respiram
antes de desaparecer.
Se o dia pede certezas
e um rosto que convença alguém,
à noite fico descalço
e sou ninguém pra ser alguém.
Ponte
Talvez amanhã eu acorde
com respostas no olhar,
ou talvez siga adiante
sem nunca as encontrar.
Mas neste quarto suspenso
onde o mundo não vem,
sou menos o que inventei
e mais o que sempre vem.
Último Refrão (quase falado)
Converso com quem eu fui
quando tudo adormece,
a noite não me salva
mas ao menos me reconhece.
Se viver é sustentar
o que o peito não diz,
nesta hora sem testemunhas
aprendo a ficar em mim.