Só eu… a folha… e o peso.
Caneta dança na folha, mas a mente tropeça.
Cada linha é uma queda, cada ponto, uma promessa.
Disseram que eu era voz, mas roubaram-me a garganta,
Agora cuspo sílabas sujas pra manter a alma branca.
Tanta palavra no bolso, mas falta uma pra mim.
Falam de futuro, mas o presente é um motim.
Vi Deus no reflexo de um copo partido,
A rezar por pecados que eu nunca admito.
Na escola rabisquei o mapa da dor,
Enquanto a prof dizia que arte não dava valor.
Mas tu já viste um verso salvar um puto da faca?
Já sentiste um caderno ser a última estaca?
Escrevo porque calo, calo porque grito,
Grito porque tenho medo do que ainda não dito.
E se morrer hoje, não apaguem o que deixo,
Que as barras que escrevi tão com sangue no fecho.
Não há rimas por vaidade, só verdades que ardem,
Não uso flow, uso luto. Isto são cartas p’os mártires.
Se a caneta é a arma, então o beat é o velório,
Porque matei-me nesta folha e nasci no purgatório.
Só queria paz… mas deram-me papel.