Domingo tem cheiro
Não é perfume
É memória
Cheiro de café passado sem pressa
De chuva fina batendo na telha
De sol entrando torto pela janela
E da casa acordando antes da gente
Domingo tem cara de família
Mesa simples
Risos que chegam atrasados
Abraços que duram menos do que deveriam
Tem cheiro de infância
De roupa no varal
De pão quente
De tarde que escorre devagar
Mas domingo também aperta o peito
Porque ele sabe que é curto
Ele sorri, mas se despede cedo
E deixa a segunda-feira
Batendo na porta da alma
Domingo é feliz
Mas é frágil
É o dia que tenta juntar
O que a semana espalhou
É o único espaço
Onde a família ainda cabe inteira
E mesmo assim
Quantas vezes ele é roubado
Por listas, por atrasos
Por cansaços acumulados
As mães
Ah, as mães…
Carregam o domingo nos braços
Enquanto equilibram a casa
O trabalho
O tempo
E os filhos pedindo presença
O domingo que era pra ser colo
Vira corrida
Vira divisão
Vira culpa silenciosa
E o urgente
Que são os filhos
Fica pra depois
Enquanto a rotina pede socorro
Domingo tem cheiro de fim de tarde
Quando o céu fica dourado
E o silêncio fala alto
Que o tempo passou rápido demais
Tem cheiro de despedida
De roupa separada
De agenda aberta
De coração apertado
Mas ainda assim
Domingo insiste
Insiste em lembrar
Que a vida não é só pressa
Que amor precisa de tempo
E que família não se agenda
Se vive
Domingo tem cheiro
E quem sente
Nunca esquece
Porque no fundo
Ele não é um dia
É um aviso