Tou com os ténis molhados, a chuva cai sem parar.
O casaco não tapa a alma, só engana o olhar.
Tenho 16, mas já vi merdas que ninguém devia.
E nem foi na televisão, foi mesmo no dia-a-dia.
Mãe berra no quarto, o gás tá por pagar.
O jantar foi ontem, hoje nem há.
Saí de casa sem rumo, só pra não explodir.
E mesmo que volte, sei que nunca deixei de fugir.
Tô no meio do bairro, gente a falar da vida.
Mas ninguém sabe o que se passa cá dentro da ferida.
Oiço sirenes ao longe, vejo putos na esquina.
Uns vendem o corpo, outros vendem heroína.
Não há sonho aqui, só maneiras de não cair.
E eu finjo que aguento, mas tou quase a desistir.
Na escola gozam porque não levo Nike no pé.
Mas ninguém pergunta se dormi bem ou comi até.
O profe fala de Camões, eu penso na renda.
Ele diz que há futuro — eu só vejo a merda.
Tô farto de promessas, de frases feitas.
De políticos a rir enquanto a mãe faz receitas.
Com massa de ontem e pão duro do café.
E mesmo assim, dá metade sem fazer-se de mulher.
Tenho amigos que já foram, outros nem sei.
Tanta faca nas costas que já nem me curvei.
Dizem isso passa, mas passa é por cima.
E quem não tem costas quentes, vira pó na esquina.
Isto não é drama.
É o que se vive quando ninguém ouve.
Não tou a escrever o passado…
Tou a tentar não morrer no presente.
Saí agora, portas a bater, mãe a chorar.
Disse que me ama, mas que já não sabe lidar.
Tô a andar sem rumo, só a respirar raiva.
Com a alma cansada e a mente que já não trava.
Foda-se isto tudo, foda-se quem julga.
Foda-se quem aponta mas nunca viu a luta.
Foda-se quem vem falar de bem e de mal.
Quando nunca passou frio dentro de um quarto igual.
Já nem sei se volto, já nem sei se fico.
Só sei que sou mais um sem mapa nem abrigo.
Mas mesmo fodido, ainda escrevo com garra.
Porque enquanto tiver voz, a verdade nunca se cala.
Se amanhã não acordar,
lembra-te que fui real.
Sem filtros.
Sem pose.
Só eu…
…no meio disto tudo.