Oooooo oooooo uuuuuu mmmmmmmm
Sou das Caxinas, família de pescadores,
nascido no sal, criado entre dores.
Rede ao ombro, madrugada fria,
o mar chamava antes do nascer do dia.
Íamos à sardinha, ao carapau, à cavala,
faneca, chicharro, peixe que nunca falha.
Era o comer do pobre, diziam os caxineiros,
mas foi isso que criou homens verdadeiros.
Petinga pequena, mas cheia de valor,
sardão graúdo brilhando à luz do farol.
Congro e moreia no fundo do mar,
peixe de luta que custa a chegar.
Lula e choco, polvo agarrado à pedra,
navalha e amêijoa na areia que medra.
Berbigão, mexilhão, lapas do rochedo,
apanhados à mão, sem luxo nem medo.
Robalo à espreita, sargo no fundo,
linguado calado, segredo profundo.
Raia e tremelga cortando a maré,
pescada fina já não é pra quem quer.
Atum passa longe, espadarte também,
esses já têm dono, não voltam pra ninguém.
O rico se mata pra levar o melhor,
o pobre fica com o resto e com a dor.
Mas na mesa humilde havia união,
caldeirada feita com o que vinha à mão.
Batata, cebola, louro e pão,
e o mar inteiro cabia no coração.
Redes rotas, dedos cortados,
histórias antigas, rostos salgados.
Caxineiro resiste, não baixa a cabeça,
o mar ensina, mas nunca promete.
Sou das Caxinas, filho do mar,
quem nasce das ondas não aprende a parar.
Entre peixe e coragem ficou a lição:
o mar é do povo, não do patrão.