Cheff vou a caminho pela praia,
o dia cai devagar, cansado como eu.
A areia fria prende os meus pés,
como se o passado não quisesse que eu avance.
O mar respira fundo,
e cada onda chama o teu nome, avó.
Penso nas tuas palavras antigas,
ditas com lágrimas presas nos olhos:
“Meu rico netinho, vais embora…
não te vou ver mais.”
Naquele momento sorri sem entender,
mas o teu coração já lia o destino.
Lembro-te sentada, mãos gastas de vida,
o lenço molhado de dor e amor.
Eu virei as costas ao choro,
achando que o tempo sempre espera…
Mas o tempo não espera ninguém.
Eu parti com sonhos maiores que a coragem,
com promessas feitas ao vento.
Tu ficaste ali, pequena,
a acenar enquanto o mundo me engolia.
O barco partiu, o caminho fechou,
e a saudade começou a crescer.
Ela teve razão…
não a vi mais.
A vida correu sem pedir licença,
o relógio não parou por mim.
Quando quis voltar, já era tarde,
o céu tinha-te chamado primeiro.
Minha avó partiu sem eu ver,
sem o meu abraço, sem o meu perdão pedido.
Partiu em silêncio,
como quem dorme depois de rezar.
E eu fiquei aqui,
cheio de palavras que nunca disse.
Hoje falo contigo caminhando sozinho,
conto-te segredos ao mar.
Peço desculpa por não ter voltado,
por ter acreditado que havia sempre amanhã.
Cada onda é um conselho teu,
cada vento é um carinho que me falta.
Avó, se me escutas do outro lado,
sabe que nunca te deixei partir sozinha.
Levo-te no sangue, no nome,
na força que me manteve de pé.
Quando a dor aperta, és tu que me levantas,
mesmo sem eu te ver.
A praia guarda a minha saudade,
o mar conhece a minha culpa.
Caminho devagar, cabeça baixa,
mas com o coração cheio de ti.
Não te vi partir, é verdade…
mas nunca, nunca te perdi.
Porque quem ama não morre,
vira lembrança viva dentro da gente.
E tu, avó,
vives em cada passo que dou,
em cada lágrima que cai,
em cada regresso que ainda sonho fazer.