Ninguém vai salvar-me, aprendi devagar
Enquanto a casa ardia, ninguém quis olhar
Disseram “és forte”, mas era só um disfarce
E cada vez que caí, só ouvi quem se afastasse
Mãe tentou segurar, mas também tava a cair
Pai foi só fumo — nem chegou a existir
A escola não viu, os profs não quiseram ver
E os putos da turma só sabiam bater
Fui crescendo na sombra, com faca nos dentes
A falar com fantasmas e silêncios doentes
A rezar sem resposta, a dormir sem alívio
E a acordar com o peito a gritar no vazio
Cada “vai correr bem” era veneno no ouvido
Porque nada correu bem — e o tempo só foi ruído
As paredes sabem tudo, mas nunca falam
E o tecto olha p’ra mim como quem embala
Escrevi rimas no escuro, com o rádio a chiar
Com o estômago colado e a alma a boiar
Fiz da dor um verso, do caderno uma arma
E de cada linha um grito com sede de karma
Nunca tive ajuda — só cobrança
E quem dizia “tens futuro” cagava na esperança
Fui eu contra tudo, sem trégua, sem plano
E o que aprendi foi que o mundo não tem humano
Ninguém vai salvar-me, nem Deus nem polícia
Nem médico, nem santo, nem juíza
Aqui ou nadas ou ficas na lama
E quem estica a mão, só te engana
Ninguém vai salvar-me, nem pastor nem pastorinha
Nem psicólogo, nem fada-madrinha
Aqui ou lutas ou cais na rotina
E se caíres, ninguém te ensina
Tantas vezes falei com as paredes do quarto
A imaginar um mundo onde não era fardo
Mas a verdade entrou pela racha do vidro
E disse-me: “tu és só mais um perdido”
Os putos que sonham aqui viram estátuas
Congelam na espera enquanto o tempo esfaqueia
E quem salta fora, nunca volta atrás
Porque o bairro prende quem não tem cartaz
Falaram de futuro, mas o presente tá podre
E cada esquina oferece um destino que fode
Mas eu escrevo, mesmo sem saber porquê
Talvez seja só a forma de não desaparecer
Não sou mártir, nem profeta de esquina
Sou só mais um gajo com raiva na retina
Mas se alguém ouvir isto e sentir no osso
Que saiba que sangrei em cada troço
Caguei na piedade, não quero pena
Quero que sintas o peso da cena
Porque ninguém me salvou — e mesmo assim rimei
E mesmo fodido, nunca me ajoelhei
Se amanhã o som calar, que fique este verso
Pra quem vive no lodo com o peito imerso
Não esperes que te venham buscar
Ninguém vai — só tu podes levantar
Ninguém vai salvar-me, nem vizinho nem irmão
Nem coach, nem padre, nem oração
Aqui a salvação não vem com contrato
E quem promete, mete a mão no teu prato
Ninguém vai salvar-me, e isso é que me salva
Porque aprendi a viver sem capa
E se caí mil vezes, levantei sem teatro
Porque no fim do mundo, eu sou o meu pacto