Olho no espelho, e o que vejo já não sou eu...
O que ficou foi só o que doeu.
O resto foi com ela.
Ela dançava no escuro da minha cabeça
Cada passo, cada gesto, deixava uma pressa
Pedi silêncio, ela trouxe tempestade
E no fim, fui só eu a pedir verdade
O lençol ainda tem cheiro da guerra
Cama por fazer, alma que enterra
O tempo passou, mas não limpou nada
Só moldou o vazio com outra camada
Disse que voltava, e nunca voltou
Deixou perfume, e comigo ficou
Fui cavar fundo, encontrei pavor
E aprendi que o amor também tem sabor
Ela não dançou por mim — dançou pra fugir
E eu fiquei no beat sem conseguir sair
Cada passo dela era um grito calado
E cada vez que amava era mais envenenado
Deixei que partisse com tudo meu
Deixei que falasse sem ouvir o que deu
Ela era bailarina, eu só o chão
Fui palco da queda, sem direção
Tentei matar o nome no copo
Mas o nome volta sempre que topo
A foto no canto ainda me encara
E eu finjo que não — mas a alma dispara
Ela não mentia — só me escondia
Eu gritava amor, ela vendia magia
Deixou-me de rastos, rimei em pedaços
E o beat virou luto no meio dos traços
Ela não dançou por mim — dançou pra fugir
E eu fiquei no beat sem conseguir sair
Cada passo dela era um grito calado
E cada vez que amava era mais envenenado
Hoje já nem quero volta
Já não suporto a volta
Só quero a paz de um dia sem vulto
Só quero acordar sem sentir insulto
Cortei a corda que me prendia
Apaguei o nome, mas não a melodia
Ela era arte, mas feita de ferros
E eu era frágil no meio dos erros
Drill não é sempre guerra no beat
Às vezes é só o que te parte no split
E quando pensei que já não havia resposta
Chegou uma carta... com a letra exposta
A carta da bailarina dizia assim…
> "Não dançava por ti, dançava pra fugir
Do mundo que aperta sem nunca ouvir
Tu vias paixão, eu via prisão
Cada beijo teu era contradição
> Eu não te mentia, só me escondia
Tinha medo que visses a alma vazia
Tu foste abrigo, mas feito de pedra
E eu precisava de céu, não de guerra
> Saí sem adeus, porque um adeus mata
E deixei o meu nome no fim da carta
Se um dia leres e ainda doer...
É porque me amaste mais do que eu soube merecer."
Ela não dançou por mim — dançou pra fugir
E eu fiquei no beat sem conseguir sair
Cada passo dela era um grito calado
E cada vez que amava era mais envenenado
Nunca foi sobre amor...
Foi sobre o que o amor nos faz perder.
E eu perdi tudo.
Até a mim.
Oluap.